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Marcelo Mello, o homem por trás das escolas de samba

Ser resistência em meio às críticas, ao mesmo tempo se propor a colocar na avenida o melhor desfile, com as melhores fantasias, levando ao público história, cultura e diversão. Essa é a missão de Marcelo Mello, carnavalesco e presidente da Escola de Samba Mocidade Independente de Salto neste ano.

Mas, se fazer Carnaval já não é fácil, fazer um Carnaval em dose dupla e com poucos recursos torna a missão dificílima. Mesmo assim, Marcelo Mello encarou o desafio de comandar o Carnaval também na Escola de Samba Pérola Negra, a outra a desfilar neste ano, que não tinha condições de se preparar sozinha.

“É fundamental termos duas escolas este ano, para que, no ano que vem, tenhamos três. Em 2025, quem sabe, tenhamos quatro e assim solidifique o trabalho da escola de samba. Não adianta ter a Mocidade Independente forte, se não tivermos um Carnaval forte em Salto. E para isso precisamos de várias entidades”, diz ele.

Veja abaixo, na entrevista que concedeu ao PRIMEIRAFEIRA, como Marcelo Mello venceu as dificuldades e o que ele levará para avenida neste final de semana.

 

Qual a sua expectativa para o Carnaval de Rua deste ano?
Marcelo Mello: É uma retomada. Estamos com as melhores expectativas possíveis, que podem ser comprovadas pelos eventos abertos que temos realizado na Praça XV de Novembro, com boa participação popular. Tivemos algumas dificuldades no trabalho, porque, querendo ou não, depois de três anos praticamente sem fazer nada, é como se precisássemos reaprender a fazer Carnaval.

 

Como surgiu a Mocidade Independente?
Marcelo Mello: A Mocidade nasceu em Itu há 23 anos, mas o gestor da cidade decidiu não ter mais escolas de samba. Mas tinha muitos integrantes de Salto que desfilavam conosco. Eu conversei com o secretário de Cultura da época em Salto e fundamos uma escola aqui. E a Mocidade cresceu. Como tínhamos muitos integrantes também de Sorocaba, no mesmo ano fundamos a Mocidade também em Sorocaba. Como não houve mais Carnaval nos últimos anos, somos a atual bicampeã do Carnaval sorocabano. E lá eram onze escolas. Sinal de que o nosso trabalho foi bem-feito. Não somos profissionais, mas fazemos bem-feito.

 

O que o público poderá esperar da escola neste ano?
Marcelo Mello: Apesar de não haver competição, existe um regulamento a ser seguido. Então temos a obrigatoriedade de levar, no mínimo, 180 pessoas para a avenida, com um número mínimo de ritmistas e outros requisitos a serem cumpridos. Nosso planejamento já vem desde o ano passado e é alusivo aos 70 anos das Lojas Cem, mas sem entrar na parte comercial e sim com a história da família. Já existia todo um pré-preparo do Carnaval. Então nosso desfile estava praticamente pronto. Nosso enredo retrata uma história que muitos ainda não conhecem. Foi até engraçado quando comentei com a comunidade e eles me perguntaram se iriam desfilar com o liquidificador na cabeça. Na pesquisa descobrimos que a família Della Vecchia, dona das Lojas Cem, surgiu em 1.500, em Veneza, na Itália. De lá para cá, tem toda uma história. Eles foram desterrados, isto é perderam posses. Eles tiveram de plantar para sobreviver. Eles vieram pela primeira vez ao Brasil, em Itu, para trabalhar nas lavouras de café. De lá, foram para a Argentina trabalhar em uma indústria de tecelagem, que foi à falência e os obrigou a voltar para a Itália. Na iminência da Primeira Guerra Mundial, muitos imigrantes fugiram e então chegaram em Salto em 1912. Metade da família foi trabalhar na Brasital e, com o fechamento da empresa, a matriarca da família usou todo o dinheiro que recebeu para montar uma bicicletaria, em 1952.

 

Além de ser presidente da Mocidade, você vai colaborar com o Carnaval da Pérola Negra? Como será sua participação?
Marcelo Mello: O edital previa a participação de, no mínimo, duas escolas. Então eu conversei com o presidente da Pérola Negra, que é o Oscar Moraes, popularmente conhecido como Pelé, e ele me falou que não tinha condições de colocar a escola na avenida. Eu argumentei sobre o momento de retomada e me coloquei à disposição para ajudar no que fosse necessário. Ele me falou que não tinha nada e eu me comprometi a assumir o Carnaval da escola com o objetivo que, no próximo ano, ela saia de forma independente. Ele aceitou e iniciamos os trabalhos. Aí sim ficou pesado, porque tivemos de construir um novo enredo, um novo samba e também conceber as fantasias. Foi um trabalho dobrado, mas agora estamos com o enredo pronto.

 

E qual será esse enredo?
Marcelo Mello: Ele será: “De onde vim e para onde vou, sem saber quem eu sou”. Resumindo, nós traremos um questionamento sobre a evolução humana, com o surgimento do ser humano, através do homem de Neandertal, passando pelas civilizações que vieram depois, como Egito, Grécia, Roma, a idade média e o cristianismo e a revolução industrial, até chegar ao período atual com toda a nossa tecnologia. Nisso, fazemos um questionamento, mostrando que o homem neandertal era um homem curvado. Evoluímos e hoje estamos novamente nos curvando na frente do computador e nos digladiando, como se estivéssemos nos antigos duelos do Coliseu de Roma, porém, através da tela do computador. E, como todo problema, em teoria, devemos apresentar a solução, que será apresentada na última ala, com os pierrôs, como se a vida fosse um eterno Carnaval. No Carnaval somos todos iguais, todos brincamos, as classes sociais se misturam, não existem distinções religiosas e de opção sexual. Então, se a vida fosse um eterno Carnaval talvez não tivéssemos todos os problemas que existem atualmente.

 

Foi difícil fazer o Carnaval da Pérola Negra em tão pouco tempo?
Marcelo Mello: Sou honesto. No início achei que teria dificuldade até em ter todos os integrantes para a bateria da Mocidade. Temos de colocar pelo menos 30 ritmistas na avenida pelo regulamento. Para minha alegria, vamos desfilar com mais de 50. E para desfilar com a Pérola Negra, muitas pessoas nos procuraram e a escola deve estar completa. E, se não estiver, há alguns integrantes da Mocidade que se dispuseram a desfilar novamente.

 

Qual a importância desse apoio entre as escolas de samba?
Marcelo Mello: É fundamental. Salto sempre teve muitas escolas. Até recentemente chegaram a sair seis escolas desfilando. Os gestores têm de entender que nós, enquanto escola de samba, temos de nos unir. Infelizmente a, cultura em nosso país sempre fica em segundo plano, não apenas no Carnaval. É um trabalho de continuidade. Não adianta desconstruir o trabalho de alguém. Pelo contrário, temos de fomentar a criação de blocos grandes, que possam vir a se tornar escolas de samba, porque assim, conseguimos desenraizar essa mentalidade arcaica de que escola de samba é bagunça, é baderna. Só fala isso quem não conhece nosso trabalho. A malandragem das antigas escolas de samba não existe mais. Da bateria da Mocidade mais da metade são universitários. São jovens que querem tocar. É fundamental termos duas escolas este ano, para que, no ano que vem, tenhamos três. Em 2025, quem sabe, tenhamos quatro e assim solidifique o trabalho da escola de samba. Não adianta ter a Mocidade Independente forte, se não tivermos um Carnaval forte em Salto. E para isso precisamos de várias entidades.

 

Como você vê a mudança da passarela do samba para a Avenida dos Migrantes?
Marcelo Mello: Num primeiro momento tivemos um pé atrás, mas sentamos para ouvir os planos. Eu sou meio resistente, porque respeito as tradições, a parte histórica. Mas, enfim, como é uma retomada estamos dispostos a experimentar. O artista trabalha onde o povo está, então, se decidiram assim, ótimo, a Mocidade vai estar na avenida fazendo o melhor Carnaval que sabe fazer. Se a experiência for bem-sucedida, legal, temos a nova passarela do samba. Se não for, vamos repensar e achar a melhor alternativa.

 

Você gostou do retorno da folia com os Bonecões na Barra?
Marcelo Mello: Achei fantástico. Como disse, não sou conservador, mas sou a favor de manter as tradições. O tempo passa, o mundo evolui, mas as tradições contam nossa história. Acho importante essa manutenção. Eu até conversei com o secretário e espero que algum vereador leve em consideração esse pedido: Os bonecões de Salto existem há mais de 70 anos, então, se isso não for um patrimônio imaterial cultural da cidade, o que será? Através disso poderíamos conseguir aportes financeiros sem ter de entrar em edital, com uma verba própria para contratar as pessoas para desfilarem com os bonecos. E, nós da Mocidade, teremos um bloco também, que é o “Zé do Burro”, em homenagem ao personagem do Anselmo Duarte. Neste ano, faremos uma homenagem no bloco aos 70 anos do filme “Sinhá Moça”, que foi um sucesso nacional.

 

Carnaval é uma festa que divide opiniões. Aos que criticam, o que você poderia dizer para fazê-los mudar de ideia?
Marcelo Mello: A primeira coisa que falo é participe. Julgar é algo tão pejorativo hoje em dia. Quem quiser conhecer, faça parte de uma comunidade. Venha ver como são feitos os ensaios, quem são as pessoas que fazem a fantasia, que trabalham conosco. Em uma cidade, existem pessoas que não gostam de Carnaval, e está tudo bem. Mas na mesma cidade tem quem goste, e está tudo bem também. Quem não gosta, não adianta criticar. E, se quiser criticar, venha conhecer primeiro o trabalho para formular uma crítica construtiva. Agora, mesmo não gostando, precisa respeitar quem gosta. O Carnaval é uma história de mais de 100 anos e a cultura tem de ser valorizada. Se não valorizarmos, que legado vamos deixar? Nada? Apagaremos o passado?

 

Como você vê as críticas a respeito do investimento público em Carnaval?
Marcelo Mello: Hoje, nós, os carnavalescos, somos a resistência. Em toda nossa região, com exceção de Jundiaí, não tem mais desfile de escola de samba competitivo. Todos estão parados. Primeiro porque os gestores acabaram usando o Carnaval para fazer política. Educação e saúde têm suas verbas próprias. Se forem bem gastas, fiquem tranquilos. A cultura já tem o mínimo para trabalhar aquilo que tratamos como se fosse cultura. Não precisa desvio de verbas para fazer investimentos. Até porque a cultura está diretamente ligada à saúde. A melhor forma de prestarmos contas pela verba que recebemos é fazermos com que as pessoas participem do nosso Carnaval sem cobrar pela fantasia. Até 2020 ainda cobrávamos a doação de um litro de leite, que doávamos ao Lar Frederico Ozanam, mas nem isso vamos pedir mais. Quem gosta do Carnaval vai se divertir e vai brincar nas escolas de samba sem gastar um centavo.

 

Financeiramente falando, é difícil fazer Carnaval?
Marcelo Mello: O Carnaval está muito caro. Tudo que brilha custa caro. Hoje, praticamente 80% do que compramos vem da China e, com a alta do dólar, sofremos. Viramos a Geni, do Zé Pelintra, personagem de Chico Buarque. Durante o Carnaval todos aplaudem. Acabou o Carnaval somos escrachados. Quem vai para a rua quer um Carnaval bonito, até porque a referência são os Carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Se apresentarmos uma fantasia de TNT vão falar que estão dando dinheiro para essa b…? Então, se o gestor de uma escola de samba não entender que a verba pública é para fazer o Carnaval, a população e o gestor tem o direito de criticar. Agora, quando essa verba chega e conseguimos encantar o público, nosso trabalho foi bem-feito. Subvenção pública é para gastar na festa. Se o povo encontrar coisas bonitas, aumenta inclusive o interesse em participar nos próximos anos. Todas as fantasias que levaremos para a avenida participaram de desfiles do Grupo Especial das Escolas de Samba de São Paulo. Quem quis desfilar lá, pagou R$ 700 a R$ 800 para usar as fantasias. Nós compramos essas fantasias para adequar ao nosso enredo e as pessoas participarão de graça. Hoje todos querem nossa presença. Antigamente nos apresentávamos em escolas sem cobrar nada, apenas com algumas doações de leite. Só que precisamos de repasses financeiros para fazer o Carnaval. Por mais que façamos eventos ao longo do ano, vai ficar muito aquém do que precisamos. No último Carnaval, em 2020, a apresentação custou R$ 48 mil. O aporte financeiro da Prefeitura não chegou nem perto disso.

 

Qual a participação da Mocidade na comunidade saltense?
Marcelo Mello: Em 2023 vamos retomar um projeto de percussão nas escolas, sem cobrar nada, dando iniciação à fanfarra e, depois de setembro, convidamos alguns jovens para fazer parte de nossa bateria. No desfile deste ano ainda vamos contar com uma ala inclusiva. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e os autistas do Instituto Zoom vão desfilar conosco.

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