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Erguendo pontes para sair da frustração e levar ao futuro

Com mais de duas décadas de trabalhos prestados em favor de pessoas com deficiência, a Associação dos Deficientes Visuais de Salto, a Adevisa, luta contra as dificuldades para se manter sem apoio do Poder Público e contra o sentimento de frustração com que muitos pacientes chegam à entidade.

Nessa empreitada diária, a coordenadora da instituição, a pedagoga Maria Isabel de Almeida, e a assistente social, Fernanda Benicio Freitas da Silva, se dividem para dar conforto emocional ao mesmo tempo em que equilibram as contas e suprem as carências, um trabalho que vai do educacional ao assistencial o tempo todo.

Nesta entrevista que concederam ao PRIMEIRAFEIRA, as duas falam sobre a importância de a Prefeitura dar apoio à entidade em situações simples que podem mudar a vida dos pacientes e falam ainda da satisfação que sentem em cuidar de pessoas que chegam muitas vezes frustradas e revoltadas.

 

Qual o trabalho desenvolvido pela Adevisa?

Maria Isabel de Almeida: Somos uma instituição que existe há 22 anos e atendemos pacientes de todas as idades, desde bebês até idoso. Hoje o nosso paciente de maior idade possui 82 anos. Todos são deficientes visuais, mas também atendemos pacientes com múltiplas deficiências, desde que também sejam deficientes visuais. Atendemos pacientes que possuam desde a baixa visão até o cego total. A instituição conta com um trabalho pedagógico, com professores de música, de matemática, de informática e de soroban (instrumento de cálculo, originário do ábaco, utilizado na aprendizagem de cálculos matemáticos por estudantes com deficiência visual no Brasil), além de psicóloga e assistente social. Entre os projetos que desenvolvemos na entidade, estão: culinária, artes, contação de história, oficinas de artesanato, entre outros. Atualmente estamos aguardando o recebimento de uma verba do Leão Amigo para contratar mais profissionais e iniciar, por exemplo, o ensino de balé. Em breve também teremos uma ação que denominamos de “Cinema às cegas”.

 

Qual a importância da entidade para essas pessoas?

Maria Isabel de Almeida: Trabalhamos com a nossa realidade, que é a reabilitação, nosso principal objetivo na instituição. É um trabalho diário, ensinando como andar, como estudar, como se vestir, como se alimentar e como mostrar para a sociedade que os atendidos não são apenas deficientes visuais e sim seres humanos que precisam ser tratados como tal, como qualquer pessoa.

 

Qual história mais te marcou?

Maria Isabel de Almeida: São duas histórias na verdade. Tem a do senhor Luiz e a da Maria Fernanda. O senhor Luiz era caminhoneiro e perdeu a visão em 2021. Ele chegou até nós falando que tinha “morrido”, que não sabia o que fazer da vida. Ele falou que tinha um casal de filhos e um dos filhos faria 18 anos justamente no ano em que ele perdeu a visão, mas não poderia ensiná-lo a dirigir. Isso acabou comigo, me deixou muito triste. Mas, o legal nessa história é que o filho aprendeu a dirigir e hoje traz o pai na instituição. Ele ainda está no que chamamos de período de luto, mas está reagindo. E nós achamos que ele não reagiria. Ele ficou muito para baixo. Também, imagina só uma pessoa que viajava e de repente não consegue fazer mais nada. Já a Maria Fernanda é uma menina de dez anos, que é autista e cega. Ela precisaria ser encaminhada a uma instituição que atende pessoas autistas, mas não conseguiu atendimento. A mãe dela chegou a buscar em outras cidades uma entidade que pudesse a atender, mas não conseguiu. Ela chegou aos prantos até nós, pedindo pelo amor de Deus para que atendêssemos a filha dela, porque ninguém na cidade estava fazendo nada pela sua filha. Isso balançou toda a nossa equipe na época. E hoje toda vez que a Maria Fernanda chega na entidade já pede o piano, que foi o primeiro brinquedo com o qual ela teve contato na entidade. Isso porque, quando ela chegou, não sabíamos ainda como trabalhar com ela, mas através desse piano, ela pegou confiança e afinidade conosco e está até hoje.

 

Como é o aprendizado desses alunos?

Maria Isabel de Almeida: Nos bebês o trabalho começa com a terapia ocupacional, estimulando-o a mamar, a tocar as coisas, a conhecer a voz da mãe, a segurar objetos. A partir dos quatro anos iniciamos a introdução ao braile, no caso de quem é cego total. É iniciada também a estimulação à mobilidade, para que tenha a coordenação motora própria e tenha noções de distância e profundidade. A partir dos cinco anos e meio é iniciada a alfabetização. Se ele não tiver nenhuma outra deficiência, com sete ou oito meses ele estará alfabetizado. No caso daqueles que já são alfabetizados e perderam a visão, nós falamos que eles terão de reaprender. Reaprender a comer, a andar, a pentear o cabelo. Iniciamos com a introdução ao braile e um trabalho de mobilidade. Acaba sendo mais difícil, porque primeiro é preciso ter a aceitação pelo atendido; depois trabalhamos com a família para que eles também aceitem a presença de um deficiente dentro de casa; e só então aprofundamos nosso trabalho com ele.

 

Como você se tornou professora de braile?

Maria Isabel de Almeida: Eu não escolhi ser professora de braile. Fui colocada nessa função. Eu tinha uma amiga que trabalhava atendendo pacientes com deficiência e, na época, eu ainda trabalhava numa empresa de um ramo totalmente distinto, mas ela me convidou a trabalhar com ela por conta de minha paciência. Eu fui, mas chegando lá trabalhei com um autista e outros três deficientes. Após um tempo eu passei a trabalhar na Escola de Cegos Santa Luzia, de Itu. Eu nunca tinha visto tantos cegos na minha vida. Foram quinze dias chorando dia e noite, porque não sabia como trabalhar com eles. Mas, pouco a pouco, fui aprendendo, fui estudando, fui me aperfeiçoando e peguei amor por eles. Já são 35 anos atendendo pacientes cegos. Iniciei na Adevisa no ano da sua fundação, em 1999. Depois me afastei por ter sido professora concursada na Prefeitura de Itu e voltei à entidade em 2021, a pedido da presidente da época, já que a filha dela, também é cega, era minha aluna e eu vim concluir a alfabetização dela.

 

Há casos de pessoas que acabaram se frustrando com a própria situação e deixaram de frequentar a Adevisa?

Fernanda Benício: O próprio senhor Luiz é um caso. Ele veio para a instituição, ficou um tempo e se afastou. Após um tempo, conversamos e conseguimos convencê-lo a voltar. Isso acontece, porque eles vêm com o desejo de que consigamos devolver a visão. Isso frustra a maioria, mas, no caso dele, houve essa aceitação e hoje ele participa conosco das atividades.

 

Quais as principais dificuldades enfrentadas pela entidade?

Maria Isabel de Almeida: Em relação aos profissionais, temos uma equipe bem composta, com pessoas fáceis de trabalhar. Talvez nossa maior dificuldade seja em relação à falta de dinheiro. Também não temos transporte para os atendidos, o que acaba afastando eles da instituição. Por exemplo, uma mãe, deficiente visual, que depende desse transporte, talvez ela não possa vir sozinha porque depende de outro familiar para acompanhá-la. Se a instituição tivesse uma condução ficaria mais fácil.

 

A falta de transporte influencia no número de atendidos?

Maria Isabel de Almeida: Com certeza. Muitas pessoas deixam de vir, principalmente aqueles que hoje estudam em período integral. Os que estudam no ensino regular, que entram às 7h e saem ao meio dia, acabam também não conseguindo vir sozinhos, porque os ônibus demoram, não param próximo da instituição e isto faz com que os alunos dependam de alguma ajuda para vir até aqui. Já falamos com a Prefeitura várias vezes, mas eles alegam que, como já possuem o passe gratuito para o deficiente e para o acompanhante, não necessitaria do transporte para a entidade. Até por isso, acabamos ficando com turmas maiores do que deveríamos para acomodar todo mundo, já que não temos aulas todos os dias.

 

Há falta de divulgação do trabalho das entidades assistenciais?

Maria Isabel de Almeida: Falta e falta muito. A própria Prefeitura desconhece o trabalho realizado nas instituições. Se eles soubessem exatamente como é nosso trabalho talvez houvesse um maior interesse do município. Eu faço um trabalho itinerante nas escolas, para visitar um deficiente que já é nosso aluno, que eu acompanho, mas quando chego lá encontro mais uns cinco ou seis que possuem deficiência. Nós não sabemos e nem mesmo a Prefeitura tem a noção disso.

 

Nesses casos, vocês convidam esses alunos para a entidade?

Maria Isabel de Almeida: Fazemos os convites, conversamos com os pais, agendamos um horário para que conheçam a entidade. Alguns até aparecem, mas a maioria não. E, nesses casos, o preconceito vem dos próprios pais, que não querem mostrar que o filho tem deficiência. Aqueles que vêm até nós, na maioria das vezes, sequer sabiam de nossa existência. São pessoas que perderam a visão e querem reaprender a viver.

 

A Secretaria de Saúde não poderia encaminhar esses pacientes?

Fernanda Benício: Até fizemos algumas reuniões com a secretaria para que possam nos direcionar algumas dessas pessoas, mas são poucos os que vêm. E os que vêm não passam por um atendimento médico.

 

Qual a maior dificuldade em relação à mobilidade urbana?

Maria Isabel de Almeida: Acho que a principal dificuldade está nas calçadas. É algo que não temos o que fazer, apenas dependemos do poder público. Mas, podemos citar várias dificuldades encontradas pelos atendidos no entorno da entidade. Estamos em um cruzamento (das Ruas Floriano Peixoto e Regente Feijó) e não temos semáforo para os deficientes. Como ele faz para atravessar? É um fluxo intenso de veículos. Até mesmo quem não é deficiente visual tem dificuldades para atravessar a rua. A pessoa pode estar esperando para atravessar na faixa de pedestres, com a bengala na mão, mas os motoristas não param. Até achamos que as mudanças no trânsito (promovidas recentemente pela Prefeitura, na Avenida Marechal Deodoro e na Rua Floriano Peixoto) fossem melhorar, mas eles não estenderam as mudanças até a frente da unidade. Também solicitamos lombo-faixa, mas sequer tivemos resposta. A Prefeitura justifica que não há risco nesse cruzamento. Mas num conceito geral, há falta de acessibilidade em todos os lugares. Você não encontra cardápios em braile nos restaurantes; nos bancos eles não sabem se tem pessoas na frente, tem dificuldades para acessar a agência, os funcionários acabam não tendo a devida paciência; e tantos outros casos.

 

Quais as necessidades principais da entidade hoje?

Maria Isabel de Almeida: Precisaríamos ainda ter mais uma assistente social, uma terapeuta ocupacional, um fisioterapeuta, um professor de orientação e mobilidade e, sobretudo, precisaríamos que nossos técnicos tivessem capacidade de ficar mais tempo dentro da instituição para um trabalho mais amplo e eficiente. Para isso, precisaríamos de mais recursos para pagar pelo trabalho deles. Teremos em abril a campanha da pizza, mas já fizemos diversas campanhas. No ano passado fizemos uma apresentação de pagode, fizemos um bingo, fizemos uma rifa e, com as doações que recebemos, tivemos a venda de panquecas. Infelizmente não temos colaboradores suficientes para participar de eventos e festas tradicionais. Além disso, estamos montando um grupo que irá produzir artesanatos que serão vendidos posteriormente e o recurso virá para a entidade.

 

Qual a capacidade de atendimento da entidade?

Maria Isabel de Almeida: Já chegamos a atender 57 pessoas de uma só vez e acredito que até 60 nós conseguimos atender. Hoje nós atendemos 38 alunos, pouco mais da metade da nossa capacidade.

 

Há preconceito na sociedade?

Maria Isabel de Almeida: Sim e muito. E não só com o deficiente visual. No nosso caso, quando precisamos de voluntários, muitos recusam por alegarem não saber como trabalhar com um cego. Mas nós também não sabíamos quando começamos. Poucos estão preparados e não é algo tranquilo. À vezes, durante as atividades, acabamos perguntando aos alunos: “Olha só, está vendo?”. O bom é que a maioria acaba se acostumando e até brinca: “Não, não enxerguei ainda”.

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