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De olho no futuro, projeto muda a vida de crianças

Moradores do bairro Santa Efigênia criaram um projeto denominado ‘Futuros Craques do Amanhã’ que oferece aulas gratuitas de futebol

 

 

Moradores do bairro Santa Efigênia criaram um projeto denominado “Futuros Craques do Amanhã”, que oferece aulas de futebol de graça para meninos de 6 a 15 anos. O projeto vai além do futebol e seu principal papel é social. Os responsáveis pela organização buscam formar não somente atletas, mas também bons cidadãos.

O intuito dos moradores ao criarem o “Craques do Amanhã” foi o de afastar as crianças e adolescentes das drogas e bebidas alcoólicas, mostrar que existem outros caminhos na vida e que todas podem sonhar com um futuro brilhante.

O jornal PRIMEIRAFEIRA acompanhou um treino do projeto e ouviu as crianças que participam. Várias delas relataram como o projeto mudou a vida delas. Um menino, inclusive, destacou que sua saúde melhorou demais depois que começou a participar do projeto.

O jovem sofre com asma e bronquite e, segundo ele, tinha muitas crises e, às vezes, era internado em decorrência dessas doenças. Agora, sua saúde melhorou e não teve mais crises por causa das doenças.

Em conversa com o jornal PRIMEIRAFEIRA, o presidente e um dos criadores do projeto, Carlos Lima, falou sobre como surgiu a ideia e como é o dia a dia do “Craques do Amanhã”, e não deixou de criticar a falta de apoio de empresas, prefeitura e Câmara.

 

Como surgiu o projeto?

Carlos Lima: O projeto surgiu em julho de 2021 e foi uma ideia que eu e outros moradores aqui do Santa Efigênia tivemos em conjunto. Tínhamos o objetivo de tirar as crianças da rua. Sempre tivemos escolinhas de futebol aqui no bairro, que começaram com o antigo Cridão. Depois, tivemos algumas por iniciativa da Prefeitura também. Mas nenhuma se manteve. E as crianças continuavam nas ruas, muitas delas bagunçando. Algumas se envolvendo com drogas ou permanecendo muito tempo no celular. Não queríamos isso. Também sempre tivemos o time aqui do nosso bairro, o Santa Efigênia. Observamos que o campo de futebol ficava parado. Então tivemos essa ideia de criar o projeto e usar o campo para isso.

 

É uma oportunidade para todas as crianças?

Carlos Lima: Sempre pensei em dar visibilidade para aquela criança invisível, que muitas vezes não tem oportunidade de jogar e ninguém escolhe em um interclasse. Mas essas crianças também querem jogar e tem um sonho. Criamos esse projeto para todas elas.

 

O início foi muito difícil?

Carlos Lima: Conversamos com os moradores interessados em ajudar no projeto e com o Bruno Silva, que é o professor do projeto e já foi jogador profissional. Ele gostou da ideia também. Com isso demos início ao projeto. Começamos com cinco, seis crianças, mas logo esse número foi aumentando. O número de crianças cresceu muito rápido, porque as crianças não tinham o que fazer no tempo livre. Nessa época atendíamos crianças de 8 anos até jovens de 17 e 18 anos. Chegamos a ter 100 crianças no projeto.

 

Como surgiu o nome do projeto?

Carlos Lima: Começamos a pensar no nome para usarmos e então comecei a pesquisar e vi alguns projetos chamados “Craques do Amanhã”. Para ficar diferente, acrescentamos uma palavra e definimos que o nosso seria “Futuro Craques do Amanhã”.

 

Além dos moradores e do técnico Bruno Silva, vocês tiveram outros apoios externos para a proposta?

Carlos Lima: No início um vereador da cidade veio até nós e disse que precisaríamos montar uma diretoria e ter recursos próprios. Pensávamos que ele iria nos ajudar, mas percebemos que ele só queria mesmo era ganhar voto aqui. Então, nós mesmos fomos atrás para criarmos uma diretoria e regularizar o projeto. Em janeiro de 2022 publicamos o edital, montamos a chapa, apresentamos no cartório e montamos nossa diretoria. Tudo isso gerou um custo, mas eu custeei tudo do meu bolso.

 

Diante dessa situação, como está sendo manter atualmente?

Carlos Lima: Hoje temos um CNPJ, um estatuto e todo o projeto está regularizado. Temos um grande “paizão” nessa história, que é o Jenildo Cavalcante, da loja Krack’s Sports. Desde o começo ele sempre nos ajudou muito. Faz doações de bolas, coletes, entre outras coisas. O Jenildo conhece o Bruno (professor do projeto), por isso, desde o início ele vem nos ajudando. O projeto pagou um curso para o Bruno se especializar e no ano passado ele começou a cursar a faculdade. Todo o nosso trabalho é voluntário. Para ajudarmos o nosso professor, eu juntava um dinheiro, às vezes com algum patrocínio que entrava também e tentava fazer um salário para ele manter seus estudos. Atualmente não conseguimos mais. Não conseguimos nem R$ 200 de patrocínio por mês.

 

E o projeto se mantém assim?

Carlos Lima: Os treinos com as crianças são de terça-feira, na parte da manhã e da tarde. Tínhamos de quinta-feira também, mas precisamos suspender por questões financeiras. No início tínhamos mais ajuda. Muitas pessoas se empolgaram em realizar um trabalho voluntário no começo, mas depois isso foi diminuindo. É um trabalho em que é preciso ter um carinho muito grande, pois não temos uma recompensa financeira. Há quem entre no projeto com a esperança de receber dinheiro, mas, como não é bem assim, saem.

 

Com que recurso vocês se mantêm então?

Carlos Lima: Só recebemos algumas doações e são de comerciantes aqui do nosso bairro mesmo. Não temos ajuda de vereadores, da prefeitura e nem de outras empresas. A ajuda que recebemos da prefeitura é o espaço cedido por eles, o campo de futebol, e às vezes eles cedem um ônibus para alguns jogos que realizamos. Quem mais nos ajuda mesmo é o Jenildo.

 

Quantas crianças fazem parte do projeto atualmente?

Carlos Lima: Hoje contamos com cerca de 60, 70 crianças. E temos aulas de manhã e de tarde para ser no contraturno da escola.

 

Como é o envolvimento dos pais com o projeto?

Carlos Lima: Nem todos os pais ajudam. Temos muitos pais ausentes, que não comparecem nos jogos e nem nas reuniões que fazemos para os responsáveis. Buscamos também ajudar essas famílias. Quando conseguimos uma cesta básica, por exemplo, doamos para a família mais carente.

 

Que história de criança do projeto que mais chamou sua atenção?

Carlos Lima: De várias crianças, pois muitas delas sempre falam que o projeto mudou a vida delas, que sentem prazer em acordar cedo para vir para cá. O projeto melhorou muito a qualidade de vida de muitas crianças e muitas criaram disciplina, pois cobramos horários, educação e ordem e isso ajuda muito na formação social.

 

Qual o seu objetivo para o projeto?

Carlos Lima: No momento, nosso objetivo é ter recursos financeiros para mantermos o professor e os voluntários para um dia conseguirmos aumentar o número de crianças. Temos treino somente às terças-feiras, porque o nosso professor Bruno tem outras atividades por fora, pois aqui é um trabalho voluntário para ele. Precisaríamos de mais professores para conseguirmos ter treinos em mais horários e atender mais crianças. Inclusive gostaríamos de conseguir dar treinos para meninas.

 

Existem meninas que querem treinar aqui?

Carlos Lima: Tem meninas que tem vontade de treinar, mas não temos como dar treino para meninas hoje em dia. Acho que se tivéssemos mais estrutura e recurso financeiro, conseguiríamos atender pelo menos umas 100 crianças. Acho que não adianta encher de criança no projeto, mas não conseguirmos dar um suporte, pois cobramos um horário, uma disciplina.

 

Por que você acha que o projeto não recebe muitas doações?

Carlos Lima: Acho que por ser um bairro mais afastado e por ter um histórico de aqui ser um bairro perigoso. Muitas pessoas acabam não doando para o projeto. Muitas pessoas vêm aqui e nem sabem que existe esse campo de futebol. Nosso bairro só aparece com uma imagem ruim, mas não é bem assim. Fazemos uma festa muito grande no Dia das Crianças. Alugamos brinquedos e enchemos o campo de futebol de brinquedos para as crianças. Para se ter uma ideia, no ano de 2022 gastamos R$ 5.500,00 com a festa. Trouxemos monitor para os brinquedos, preparamos lanches para as crianças e para os moradores. Corremos atrás de doação na época do Dia das Crianças para fazermos uma grande festa.

 

Como os interessados podem realizar doações?

Carlos Lima: Quem tiver interesse em conhecer ou doar para o projeto, pode acessar o nosso Instagram (@craquesdoamanhafc ) e acompanhar mais sobre o nosso projeto. Aceitamos doações de bolas, coletes, materiais esportivos, além de doações em dinheiro também. Estamos com a ideia de criar um uniforme para as crianças e estamos em busca de um patrocínio para isso agora.

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