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‘Sigo os passos do meu pai”, diz a presidente da Academia de Letras

À frente da entidade de escritores e artistas de Salto e de cidades da região, Anita Liberalesso Néri se diz fiel aos princípios de Ettore Liberalesso, mas consciente dos desafios de manter viva a iniciativa

 

Anita Liberalesso Néri poderia ser apresentada facilmente em Salto, onde nasceu, como filha do escritor, historiador e jornalista Ettore Liberalesso, que marcou sua história pela dedicação e apreço à cidade e que hoje dá nome a uma das semanas mais importantes de discussão cultural da região, mas ela vai além: à frente da Academia Saltense de Letras desde o ano passado, Anita afirma que segue os passos do pai, mas está consciente de que tem grandes desafios no cargo para manter a entidade viva e atuante.

Professora colaboradora no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Anita é Psicóloga, Mestre em Psicologia e Doutora em Psicologia pela USP desde a década de 70. Lecionou, orientou e pesquisou na Faculdade de Educação da Unicamp de 1985 a 2016. Em 1997, liderou um grupo de professores em prol da instalação do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia na Unicamp, o primeiro a ser instalado no Brasil, e, desde então, é docente nesse programa.

Nesta semana em que a Academia Saltense de Letras promove a Semana Cultural Ettore Liberalesso para celebrar a memória de seu pai, que foi um dos fundadores da entidade, Anita falou ao PRIMEIRAFEIRA sobre a importância que tem para ela ser presidente da Academia, sobre o legado do seu pai para a cultura, o jornalismo e a história de Salto e sobre como se organiza para enfrentar o desafio de manter viva uma reunião de escritores e artistas de Salto e região, que começou em 2008 e já perdeu diversos membros.

 

Qual é o significado para a senhora assumir a presidência de uma Academia de Letras que foi fundada pelo seu pai?
Anita Liberalesso Néri: Tem sido um período feliz de encontro e reencontro com essa cidade que amo e prezo com orgulho. Percebo que sua alma de pequena cidade, onde todos se conhecem, permanece ao mesmo tempo em que se avolumam os problemas econômicos e de segurança, que ultrapassam nossas fronteiras. Ao mesmo tempo em que vejo que se segmentam novos grupos, percebo que faltam à cidade a organização e o reconhecimento de novos movimentos culturais em favor de novos aspectos da nossa identidade. Ela deverá se construir aos poucos, a partir da atuação de novas lideranças e da identificação de novas camadas de memória histórica. Na presidência da ASLe, como a nossa querida Academia Saltense de Letras é chamada, estarei junto com outros saltenses que compartilham objetivos e interesses no âmbito da cultura e da educação. Meu pai também era assim. Sigo seus passos.

 

Qual o legado deixado pelo seu pai?
Anita Liberalesso Néri: O legado deixado pelo meu pai como historiador e como jornalista foi exatamente o de construir um enredo, o de reconstruir a trajetória dos grupos sociais responsáveis pela formação da cidade em fins do século XIX e início do século XX. Além disso, ele fez parte de um grupo, que, ao longo de várias décadas, no século XX, trabalhou intensamente para criar as instituições sociais da cidade, em torno das quais se organizaram a educação, a política, as relações de trabalho, os núcleos religiosos e outros aspectos que fizeram de Salto o que conhecemos. Ettore foi um visionário, um autodidata, um organizador, um legislador e um líder. Ele foi um jornalista e ajudou a criar a profissão em Salto e a mostrar ao povo saltense o quanto ela é importante.

 

Como a senhora se sente como presidente da Academia?
Anita Liberalesso Néri: Sinto-me feliz e estimulada. Estou presidente por ser saltense, por ter uma carreira e uma trajetória profissional que me aproximam dos objetivos da ASLe. Fui convidada como representante de um grupo que detém propósitos comuns e vontade de trabalhar em prol da cidade.

 

Quais projetos serão realizados pela Academia este ano?
Anita Liberalesso Néri: Em 2023, a ASLe exerce e consolida seu papel na liderança de um importante concurso, o Moutonnée de Poesia, de alcance não só nacional como internacional. Já em sua XXXI edição, a ASLe é parceira da Secretaria de Cultura de Salto, conforme lei municipal que veio a lume pelas mãos do atual secretário de Cultura, Sr. Oséias Singh Jr. Além dessa promoção, publicaremos mais uma de nossas antologias, coletânea de textos produzidos pelos acadêmicos sobre um tema pré-fixado, de interesse para a comunidade no ano da publicação. A Semana Cultural Ettore Liberalesso realizada no período de 29 de março a 1° de abril é outra ação tradicional da ASLe. O tema deste ano é “Jornalismo e Literatura: do factual ao ficcional”, abordando temas importantes e atuais, tais como os desafios do jornalismo no interior, a liberdade de expressão do escritor e os conceitos de verdade e ficção. O evento acontecerá nas dependências do Ceunsp, celebrando a colaboração entre a cidade, a Academia e a Universidade. Além desses, nós estamos com outro projeto muito interessante em curso, que é o convite à participação de escritores, educadores, jornalistas e outros profissionais para oferecer palestras sobre tópicos de sua especialidade aos membros da Academia. Esses convidados já foram desde a jovem escritora que veio acompanhada por sua professora de literatura em uma das escolas da cidade, até o autor do palpitante volume que versa sobre a história de uma das maiores empresas saltenses em seu 70º aniversário. Ao lado desses projetos fixos, agendados em nosso calendário anual, temos nos ocupados de eventos ocasionais, entre eles, por exemplo, com festivais de dança, teatro, cinema e literatura e debates sobre o meio ambiente e o rio Tietê.

 

O que a realização do Prêmio Moutonnée de Poesia traz para a cidade de Salto com a ajuda da Academia?
Anita Liberalesso Néri: O Prêmio Moutonnée abre oportunidade para o conhecimento de novos poetas e para a divulgação do trabalho deles. A publicação dos poemas premiados pereniza essas obras, promove sua difusão, oferece modelos de atuação e estimula a produção poética. O prêmio ganha ainda mais importância porque essa modalidade de produção literária é relativamente pouco difundida ou até menos difundida do que as outras. Em alguns ambientes, chega a ser tratada com desdém, como arte menor, diletantismo ou coisa de românticos ou revoltados desocupados. Não existe nada de mais falso nessas crenças, que ignoram o importantíssimo papel da poesia, desde quando, há milênios, ela se afinava com a tradição oral, que, muito antes da invenção da escrita, permitiu a construção da história e, com isso, da nossa humanidade. Não existe nada de mais mesquinho do que ignorar o papel da poesia na formação e na manutenção da resistência política e moral de tantos filósofos, historiadores, políticos, religiosos, comediantes e músicos, ao longo do tempo. De novo, as pretensões dos acadêmicos da ASLe são muito menores, mas os nossos olhos sempre devem mirar propósitos mais altos. Para a cidade de Salto em particular, achamos necessário valorizar e divulgar a produção cultural, especificamente a poética. Também acreditamos que é importante descobrir e incentivar novos talentos. O tema do XXXI Prêmio Moutonnée de Poesia, em sua versão de 2023, será “Cresço e poetizo”, que explorará as possibilidades da metapoesia. As inscrições estão abertas até 31 de julho do corrente ano. Além da publicação das produções dos premiados em livro editado pela ASLe e pela Secretaria de Cultura, haverá prêmios no valor de R$ 10.000,00. Nos últimos dois anos, o Prêmio Moutonnée teve como tema “Percepção poética da pandemia” e “Pós-moderno, pós tudo”.

 

A senhora falou do lançamento de uma antologia. Qual será o tema deste ano para a essa obra?
Anita Liberalesso Néri: Essa publicação da ASLe será lançada no segundo semestre. Será uma antologia com textos nos gêneros crônica, ensaio, conto e poesia, produzidos pelos acadêmicos. Ainda não tenho o tema definido. A do ano passado foi intitulada “Natureza, eu, tu e ela”. A de 2021 privilegiou a pandemia do novo coronavírus, que gerou a Covid-19, e chamou-se “É de sonho e de pó”. Imagino que, no futuro, será um dos registros disponíveis sobre um evento adverso com efeitos incontroláveis e de grande alcance em várias áreas da atividade humana. Da mesma forma, a coletânea “Natureza” apareceu em um período de aumento da consciência e do chamamento à responsabilidade de todos e de cada um pelo planeta.

 

Por que o tema “Jornalismo e Literatura: do factual ao ficcional” para essa edição da Semana Cultural Ettore Liberalesso?
Anita Liberalesso Néri: A importância da realização desse evento é chamar a atenção da população para temáticas importantes para o cotidiano da cidade e, ao mesmo tempo, manter suas tradições. Estou depositando grande expectativa em nossa parceria com o Ceunsp, que, aliás, sempre nos acolheu. Ficarei muito feliz se os estudantes de Jornalismo, Direito, Comunicações e áreas afins comparecerem em massa. Nossos convidados têm importantes mensagens sobre suas experiências e sobre suas visões de futuro a lhes transmitir. Este ano, nós escolhemos discutir o tema “Jornalismo e Literatura: do factual ao ficcional” para abordar uma das questões em alta como os dilemas do jornalismo no interior. Na minha opinião, eles não se esgotam nas questões de recursos econômicos, conteúdos, formatos e periodicidade, para abranger questões de liberdade de opinião, responsabilidade social, transparência, direito à informação e submissão mais ou menos velada a interesses de grupos religiosos ou políticos. Tenho certeza de que temos muito a aprender com os importantes jornalistas convidados, cujas falas deverão refletir, entre outras coisas, suas interações com os velhos mestres Ettore Liberalesso e Valter Lenzi, que nos inspiraram a organizar a 6ª Semana Cultural. A outra questão que escolhemos para organizar a temática desta Semana Cultural é a dicotomia verdade x mentira, factual x ficcional, falso x verdadeiro e suas implicações éticas e legais com relação à produção jornalística e literária. É um assunto que dialoga com os precedentes e que está na ordem do dia em todo o mundo que se descobre como alvo das novas tecnologias da informação, ainda sem saber o suficiente sobre os limites do uso dos algoritmos e das regras profundas da inteligência artificial na produção literária, jornalística, científica, filosófica e política.

 

Como é a relação da senhora com os escritores da Academia. Por exemplo, os escritores Rafael Barbi e Anna Osta, ambos da Academia, terão obras publicadas na Biblioteca de Jumirim (SP). A senhora participou desse processo?
Anita Liberalesso Néri: Tanto o Rafael Barbi quanto a Anna Osta têm luz própria. Os nossos escritores são assim no todo. Estamos todos irmanados. E é bom saber que outros leitores podem desfrutar das obras do Rafael e da Anna. Por outro lado, é bom saber que Jumirim está ampliando a base de informações de seus acadêmicos e da sua região.

 

Vários dos fundadores da Academia já faleceram. Há uma preocupação em renovar a participação?
Anita Liberalesso Néri: A Academia é um corpo vivo, em constante movimento e transformação. A ASLe caminha em continuidade com os sonhos de seus fundadores. Estamos com 36 das 40 cadeiras ocupadas hoje e ganhamos um membro honorário no ano passado, o Sr. João Marcos Andrietta. Alguns acadêmicos faleceram sim, outros foram cuidar de outros projetos. Existe um equilíbrio etário, assim como existe um equilíbrio quanto ao tempo de pertencimento dos acadêmicos em relação à instituição.

 

Qual o tempo que cada acadêmico permanece na Academia? Como isso é determinado?
Anita Liberalesso Néri: A ocupação das cadeiras da Academia é de natureza vitalícia, conforme determinam os estatutos da ASLe e de outras Academias existentes no Brasil e em outros países. É evidente que os acadêmicos têm o direito de licenciar-se temporária ou definitivamente por motivos familiares, de doença, viagem, mudança ou outros, da mesma forma que a Academia pode solicitar que se afastem, caso julgue que há motivos para tanto. O ingresso na Academia começa com a proposição de um candidato a uma vaga, que é submetida à presidência. A direção a analisa e, em aprovando, a envia ao Comitê de Ética Acadêmica para a avaliação técnica, após a qual ela volta à presidência, que convoca uma assembleia geral extraordinária para votar a proposição. O candidato pode ser aceito por maioria simples dos votos ou pode ser rejeitado. A admissão é completada em sessão solene em que o novo acadêmico é apresentado aos demais. Ele é diplomado e profere uma palestra sobre seu patrono nesse dia. Ao entrar para a Academia, a pessoa escolhe um patrono e submete suas ações às normas dos estatutos e regimentos instituídos pelos membros da organização e reconhecidos pelas leis brasileiras. Trata-se de instituição privada, mantida pelas contribuições dos acadêmicos e por eventuais outras oriundas de iniciativas privadas e públicas de apoio à cultura, à literatura, às comunicações, às artes, às humanidades e às ciências de modo geral. A Academia pode ser do tipo pura. Quando se dedica apenas a um ramo do conhecimento, como à Medicina ou às Ciências. E pode ser mista, quando recebe escritores, cientistas, filósofos, historiadores, jornalistas etc. A ASLe é deste último tipo.

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