Nosso senso comum de cada dia garante: futebol e política não se discutem. Vou contra o senso comum (novamente aqui nesse espaço) via uma declaração do filósofo estadunidense Richard Rorty, que, em 1996 (!), declarou:
“Confesso que, se eu tivesse de apostar qual seria o próximo país a virar fascista, minha aposta poderia ser os Estados Unidos. Isso porque nós, norte-americanos, estamos sofrendo as consequências da globalização do mercado de trabalho, sem termos estabelecido um estado de bem-estar social. Sendo assim, estamos muito mais vulneráveis ao populismo de direita que a maior parte dos países europeus”.
A declaração surpreende pela precisão: morto em 2007, Rorty não viu os Estados Unidos sob Trump, mas certamente não teria dificuldades em se lembrar de sua declaração de 30 anos atrás. Talvez algum leitor aqui tenha levantado as sobrancelhas em sinal de suspeição. Quer dizer, então, que os Estados Unidos são um país fascista? Não me importa propriamente o termo. Apenas convido à observação do que tem acontecido até mesmo com cidadãos americanos: mais de um foi morto por agentes do Estado enquanto protestava contra políticas governamentais…
De resto, há que se prestar atenção nas palavras do filósofo. Segundo seu raciocínio, um prato cheio para o florescimento de populismos de direita são sociedades que têm experimentado os malefícios da globalização (por exemplo, a migração dos serviços de mão de obra para países do leste asiático que pagam salários menores em comparação com EUA ou Europa) sem uma contrapartida estatal que mitigue tais efeitos – o que conhecemos como estado de bem-estar social. Ora, não é o que temos visto nos Estados Unidos? As grandes indústrias manufatureiras montaram suas linhas de produção na China, onde pagam, justamente, salários menores; o grande contingente de ex-trabalhadores americanos, ressentido com a perda da renda e da qualidade de vida, é o eleitor privilegiado de Donald Trump.
Este, por sua vez, procura agradar a esse público com atitudes tipicamente populistas: criminalizar os imigrantes, como se eles fossem os culpados pela crise econômica nos EUA; suprimir políticas públicas de apoio à população mais carente (o presidente disse não ser responsabilidade federal financiar creches, por exemplo) e promover ações aleatórias com a pretensão de fomentar a imagem de força e proteção nacional (Venezuela, Irã; fala-se que o próximo alvo será Cuba).
O leitor cujas sobrancelhas se levantaram acima talvez ainda não as tenha abaixado: o nobre articulista não vai mencionar o populismo de esquerda? Não, por duas razões. Primeiro: Rorty menciona explicitamente o populismo de direita. Segundo: o populismo de esquerda, ao menos a partir de seus críticos, não causa os malefícios mencionados acima. O que ele faria? Aumentaria programas sociais? Faria obras suntuosas? Baixaria impostos? Daria subsídios diversos a pessoas pobres? Há comparação entre essas duas modalidades de populismo?
Eis algo a se discutir…