Em 2026, o Estado de São Paulo confirmou 19 casos e 18 óbitos por febre maculosa, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde. Os prováveis locais de infecção foram identificados nas regiões dos Grupos de Vigilância Epidemiológica de Campinas, Piracicaba, Santo André, São José dos Campos e Sorocaba, do qual Salto faz parte.
A médica infectologista Dra. Simone Sena Fernandes concedeu uma entrevista ao PRIMEIRAFEIRA e falou sobre os principais sintomas da febre maculosa, a orientação para prevenir a doença e também como o tratamento é realizado.
Ela explicou que o quadro inicial é inespecífico e pode ser confundido com virose ou dengue. Os sintomas surgem cerca de sete dias após a picada e se caracterizam por febre alta de início súbito, dor de cabeça intensa, dores musculares e articulares, náuseas, vômitos e prostração importante.
“O exantema — as manchas avermelhadas que dão nome à doença — costuma aparecer entre o terceiro e o quinto dia, começando em punhos e tornozelos e progredindo para o tronco, as palmas das mãos e as plantas dos pés. É fundamental entender que uma parcela relevante dos pacientes nunca desenvolve o exantema, ou o desenvolve tardiamente. Esperar a mancha para pensar no diagnóstico é uma das principais causas de morte por essa doença”, enfatizou.
A infectologista destaca que é preciso procurar atendimento médico imediatamente quando estiver com febre e tiver ocorrido uma exposição a área de risco nos 15 dias anteriores. Entre as áreas de risco estão mata, trilha, parque com capivaras, margem de rio ou represa, pesca, ciclismo em área rural, contato com cavalos ou com cães que circulam nesses ambientes.
Além disso, a médica destacou que o paciente não precisa se lembrar da picada, até porque a picada é indolor e muitas vezes passa despercebida. “São sinais de alarme que exigem atendimento de urgência: vômitos persistentes, dor abdominal, icterícia, redução do volume urinário, manchas roxas na pele, confusão mental ou sonolência”, explicou.
A Dra. Simone também recomenda circular somente por trilhas desmarcadas e evitar capim alto, vegetação densa e áreas com capivaras. Além disso, é importante usar roupas claras e compridas, com a barra da calça dentro da meia ou do calçado, além de repelente na pele exposta.
Médica infectologista
“Durante o passeio, o corpo deve ser inspecionado a cada três horas, e novamente ao chegar em casa, com atenção especial ao couro cabeludo, atrás das orelhas, axilas, umbigo, cintura, virilha e região posterior dos joelhos. O carrapato precisa permanecer aderido por várias horas para transmitir a bactéria — por isso a inspeção precoce é a medida preventiva mais eficaz de todas”.
“Se um carrapato for encontrado fixado à pele, deve ser removido com pinça, segurando-o o mais próximo possível da pele e tracionando de forma firme e contínua, sem torcer, esmagar, queimar ou aplicar álcool, éter ou óleo. Em seguida, higieniza-se o local com água e sabão. As roupas usadas devem ser lavadas em água quente. Vale anotar a data da remoção e observar o aparecimento de febre nos 14 dias seguintes”, explicou.
Em relação ao diagnóstico precoce, a médica ressaltou que pode ser a diferença entre se curar e vir à óbito. Ela também destaca que a febre maculosa brasileira tem uma das maiores letalidades entre as doenças infecciosas e essa letalidade está ligada ao atraso no início do antibiótico.
“O diagnóstico é clínico e epidemiológico. Os exames sorológicos só se tornam positivos a partir do sétimo ao décimo dia de doença e exigem amostras pareadas, ou seja, confirmam o caso retrospectivamente. Por isso, a conduta correta é iniciar o tratamento diante da suspeita, sem aguardar o resultado de exame”.
“O tratamento de escolha é a doxiciclina, iniciada idealmente até o quinto dia de doença, mantida por pelo menos sete dias e por no mínimo três dias após o desaparecimento da febre. Ela é indicada inclusive para crianças pequenas e para gestantes, situações em que o benefício supera amplamente os riscos. Casos graves exigem internação, suporte intensivo e doxiciclina por via endovenosa. Diagnóstico e tratamento são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, em unidades básicas de saúde, prontos-socorros e hospitais”, explicou.
Por fim, em relação ao aumento dos casos, a médica explica que se deve a soma de diversos fatores. Entre eles está o lado ambiental, que conta com uma expansão da população de capivara em áreas como canaviais, parque urbanos, entre outros. “Mas há um segundo fator, que considero o mais importante: a letalidade observada entre os casos confirmados neste ano é altíssima, o que indica que estamos diagnosticando quase exclusivamente os casos graves e fatais — muitos confirmados apenas após o óbito. Os casos leves e moderados provavelmente estão sendo tratados como virose e nunca chegam à notificação. Isso não significa apenas que a doença esteja mais frequente; significa que ela está sendo reconhecida tarde demais”.
“Aumentar a suspeição clínica na porta de entrada — perguntar sobre exposição a área de mata diante de toda síndrome febril aguda — é a intervenção com maior potencial de reduzir mortes no curto prazo”, destacou.