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Pais recorrem à Justiça contra operadora de plano de saúde após mudanças no tratamento de autistas

Desde setembro do ano passado, pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), conveniados à Unimed Salto/Itu e que recebiam atendimento em clínicas das duas cidades, enfrentam um grande desafio após a inauguração de uma rede de clínicas especializada em terapia multidisciplinar, prestadora de serviços para a operadora do plano de saúde.

As crianças, que há anos eram atendidas pelos mesmos profissionais em um ambiente já conhecido, passaram por uma mudança que, no caso delas, por conta do transtorno, representa uma quebra de padrão — algo difícil de ser aceito e que pode gerar uma série de dificuldades no tratamento.

A reportagem do PRIMEIRAFEIRA conversou com diversos pais atendidos nos dois municípios, e a opinião é quase unânime: a nova clínica oferecida para o tratamento não consegue atender os autistas da mesma forma; o medo de regressão no tratamento é evidente; e, para muitos pais, as exigências impostas podem causar até a paralisação do atendimento.

Mudança de rotina para toda a família

Além da alteração na rotina e da troca dos profissionais que auxiliavam no tratamento, os pais são obrigados a permanecer na recepção durante todo o atendimento dos filhos. Em alguns casos, podem ficar até cinco horas sentados, o que impossibilita que realizem outras atividades, sejam profissionais ou domésticas.

“Eles querem que você fique sentado na recepção durante todo o tratamento. Então, ou você escolhe trabalhar ou escolhe a clínica. É isso que o plano de saúde está forçando. Eles sequer levam ao banheiro e não oferecem as refeições se a criança não usa garfo e faca”, afirmou Daiane Michele, mãe de uma criança de 9 anos que realiza atendimento em Salto.

Priscila Vieira Atílio contou que abandonou a carreira para conseguir estar presente no tratamento e desabafou sobre a clínica: “Se a clínica não consegue suprir as necessidades das crianças, quem vai suprir? Ela não atende às nossas necessidades”.

De acordo com Rênia da Silva, mãe de uma criança de 5 anos, desde o início do tratamento de seu filho na unidade de Itu, há três meses, foram pelo menos três fonoaudiólogas diferentes. “Meu filho começou o tratamento em setembro e, até agora, já passou por três fonoaudiólogas. É muito rodízio de profissionais, e isso não cria vínculo com a criança. Ele me pergunta se hoje vai ter uma ‘tia’ nova”, alegou.

Aprendizado

Tanto na unidade de Itu quanto na de Salto, a reclamação dos pais refere-se ao espaço oferecido pela prestadora de serviços da Unimed Salto/Itu. Além de pequenas, as salas contam com atendimento simultâneo a mais de uma criança. No espaço de convívio coletivo, segundo os relatos, há muitos gritos e falta de controle por parte dos profissionais.

Profissional da educação infantil, Juliana Lui, mãe de uma criança de 7 anos que faz tratamento na unidade de Itu, teme pelo aprendizado da filha. “Sou professora de educação infantil e sabemos que, para aprender alguma coisa, ela precisa de um ambiente calmo, onde a terapeuta lide diretamente com a criança. Com todos juntos, não dá”.

Assim como ela, outras mães também acreditam que o tratamento oferecido na clínica pode interferir negativamente no aprendizado das crianças. “Agora, com a volta às aulas, quatro horas de tratamento na clínica, mais a escola, pode ficar um pouco pesado e desgastante para as crianças. Eles poderiam dividir esse tempo, com as terapeutas acompanhando na escola parte do período e outra parte do atendimento na clínica”, explicou uma das mães ouvidas pela reportagem.

Além disso, os pais reclamam do acesso restrito às salas. “Parece uma prisão”, relatou uma das mães. O acesso principal é feito por meio de uma senha que apenas os profissionais da clínica possuem. “Com tudo o que vemos hoje em dia, não sei nem o que seria capaz de fazer se ouvisse minha filha chorando lá dentro”, mencionou outra mãe.

Segundo elas, nas clínicas ABA de Itu ou na Ayres, em Salto, os pais têm a possibilidade de entrar nos ambientes, sem que isso prejudique o aprendizado dos filhos.

Profissionais

As mães e responsáveis também alegam que alguns profissionais não estariam capacitados para atuar com crianças com diferentes graus de autismo. De acordo com informações, o curso de contenção de crises dos profissionais da clínica de Itu não estaria válido. “É um absurdo. Como uma clínica não tem uma profissional qualificada?”, reclamou Carla de Almeida.

Além disso, outro relato aponta que profissionais estariam conversando ou utilizando o celular durante o horário das atividades com os alunos autistas. “Quando fui conhecer, as crianças estavam na área de convívio e, quando entrei, uma estava em cima da mesa e a terapeuta estava no celular. A criança estava rodando, e as terapeutas conversavam entre si”, relatou uma das mães.

Na Justiça

Diante de todas as situações, a solução para a maioria dos pais foi procurar a Justiça. Consultado pela reportagem do PRIMEIRAFEIRA, o advogado Davi Leão, especialista em Direito à Saúde, explicou que, segundo relatos dos beneficiários atingidos pelo descredenciamento, há indícios de que requisitos legais não teriam sido obedecidos pela operadora.

“O descredenciamento de clínicas e hospitais conveniados, sobretudo quando feito em vários locais ao mesmo tempo, deve obedecer ao requisito legal de demonstrar, previamente, a equivalência do prestador substituto na rede credenciada. Além disso, deve-se levar em consideração o vínculo terapêutico estabelecido por esses pacientes, cuja ruptura pode ocasionar interrupção do tratamento. A Justiça tem reiteradamente reconhecido que, em situações envolvendo tratamentos prolongados de crianças com TEA, especialmente aqueles que exigem vínculo terapêutico estável com equipe multidisciplinar, a interrupção abrupta ou a simples substituição unilateral do prestador representa risco concreto de retrocesso evolutivo, legitimando a manutenção da terapêutica no local onde tal vínculo se consolidou”, afirmou.

O que diz a Unimed Salto/Itu

Questionada pela reportagem, a Unimed Salto/Itu informou que as duas unidades da clínica foram inauguradas no final de 2025. Com anos de experiência em São Paulo, a cooperativa passou a oferecer tratamento aos pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) conveniados ao plano.

Durante a inauguração da unidade de Itu, o diretor-presidente da Unimed Salto/Itu, Dr. Arnaldo Passafini Neto, afirmou que a iniciativa representa mais um avanço importante. “O que buscamos foi continuar fazendo aquilo que sempre fizemos de melhor dentro da Unimed Salto/Itu: oferecer um atendimento de qualidade para os nossos beneficiários. No caso da terapia ABA, não tínhamos essa expertise, então era fundamental contar com um parceiro que já tivesse essa experiência e qualidade”, declarou à época.

Segundo a Unimed Salto/Itu, as duas clínicas, nas duas cidades, possuem capacidade de atendimento para aproximadamente 450 pacientes, número equivalente ao total que já estava em acompanhamento nas clínicas anteriormente credenciadas. Há, ainda, a perspectiva de ampliação desse atendimento, podendo alcançar até 600 pacientes até o final de 2026, superando a demanda atual.

De acordo com a cooperativa, a prestadora manteve a equivalência do serviço, sem prejuízo ao consumidor, oferecendo tratamento fundamentado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), metodologia padronizada e reconhecida mundialmente, com profissionais capacitados.

Sobre as reclamações dos pais, a Unimed Salto/Itu informou que deve se reunir com o prestador para avaliar as possíveis ocorrências. No entanto, destacou que, para uma apuração mais adequada e formal, o canal indicado é o setor de Relacionamento com o Cliente.

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