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A mercantilização do Ensino Superior privado brasileiro

A educação superior, durante toda a história, sempre foi um aparelho ideológico e importante instrumento estratégico de domínio sociopolítico e via de maximização da lucratividade às organizações. As universidades privadas brasileiras, nos últimos anos, vêm se alastrando de forma exponencial e se transformando em comércio de “diplomas” e verdadeiras “fábricas de operários”em série; atuando a serviço dos interesses econômicos das grandes corporações privadas.

É notório que as universidades brasileiras estão divididas em duas missões estratégicas e bem distintas. As públicas direcionam seus recursos, cada vez menores, ao desenvolvimento de pesquisas,na inovação tecnológica e na busca por soluções,que beneficiem economicamente as grandes corporações privadas; usando para tal o dinheiro do proletariado. Já as universidades privadas estão se limitando apenas à instrução em massa do proletariado, ou seja, são meras ferramentas de “preparar” técnicos baratos, dóceis, resilientes e funcionais, diante da demanda da sociedade industrial.

As diretrizes políticas educacionais, direcionadas ao ensino superior; as leis brandasrelativas à autorização de abertura de cursos e instituições de ensino superior pelo Ministério da Educação (MEC);a permissividade das entidades e conselhos técnicos “reguladores” das diversas profissões e os programas sociais de subsídio estudantilcontribuem para a criação de um cenário caótico. O modelo de ensino superior, principalmente o privado, corrobora para uma maior divisão eespecialização do trabalho; exclusão social e reprodução do status quo. As instituições de ensino necessitam repensar sobre a qualidade dos serviços prestados ao país, seu papel na sociedade e alocarem seus recursos em busca de: uma pedagogia da libertação;fomento ao senso crítico, resgate da cidadania; criatividade; estímulo à pesquisa científica e no compromisso ético com as futuras gerações.

Acho improvável que a educação superior “industrial”, repleta de “PH Deuses” da ciência, seja capaz de edificar uma sociedade menos desigual e contribuir para a formação de entes críticos, politizados, altruístas e éticos. A educação superior brasileira sempre foi dualista e elitista, desde a época da colônia. Forma, de um lado, os filhos dos trabalhadores técnicos e, de outro, os filhos da classe dominante (empreendedores), que frequentam em massa os melhores cursos das universidades públicas. É perceptível o auge do fordismo e da “estandardização” do ensino superior privado, onde a ética está alicerçada na otimização de recursos, eficiência gerencial e no lucro máximo dos mantenedores.

Os universitários, vistos como clientes, devem ser bajulados com facilidades e permissividade. Nos últimos anos os empreendimentos de ensino superior além de se multiplicarem, fortaleceram-se economicamente e politicamente. É comum no mundo universitário privado a prática de ações, antes peculiares às grandes empresasde bens de produção, tais como: holding; truste, cartel, oligopólio, dumping, abertura de mercado de capitais (venda de ações) e outras condutas, que enaltecem o espírito capitalista (“empreendedor”) do ensino superior. Vive-se a fase da “universidade de portas escancaradas”, em que a retórica hipócrita da democracia neoliberal reforça a necessidade de uma educação superior para todos (inclusão social), como meio de justiça e equidade.

O governo vem criando políticas e leis que facilitam cada vez mais o ingresso do proletariado no ensino superior; como forma pontual de compensar e ocultar a incompetência de décadas do Estado em oferecer uma educação básica de qualidade e gratuita. A “universidade para todos” não é uma ação política de justiça e responsabilidade social, por parte do governo, mas uma estratégia bem arquitetada e maquiavélica de mascarar a realidade trágica da educação básica pública e maximizar a receita dos grandes grupos educacionais privados de ensino superior. O incremento no contingente de operários (proletariado) na sociedade industrial, com formação técnica e dotados de senso comum, diminuirá os custos de produção e acirrará a teoria da mais-valia. A rede privada, que hoje concentra 88% do ensino superior no país, e o governo não estão comprometidos com a melhoria da qualidade da educação superior e, muito menos, em fomentar a natureza filosófica, científica e artística do proletariado. A intensão dos empreendedores e governo é preparar técnicos especialistas; um exército de analfabetos políticos, via instrução em massa, e por fim mostrar à sociedade que nunca o país teve tantos pobres, negros, pardos, indígenas e outros “grupos sociais” com diploma de graduação.

Grande parte das universidades se mostra, através de suas políticas e condutas, incapazes em oferecer serviços educacionais de qualidade à classe subalterna. A educação superior deve encorajar o homem a enfrentar realidade natural, romper a adaptação, adquirir a consciência sobre a importância de uma ação transformadora, segundo os princípios da filosofia da práxis.Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, emocional, físico e moral. É nesse sentido que a educação ganha destaque na concepção socialista, ao defender: a gratuidade da educação e um ensino multidisciplinar ao proletariado, não atrelado e ou subordinado às políticas do Estado “corporativista” e nem à religião. É um compromisso ético do Estado democrático oferecer uma educação, em todos os níveis, única e de qualidadea fim de atribuir ao proletariado uma significativa ciência de seu papel e condição social, além de encorajar os aprendizes a tomarem as rédeas de suas vidas.

Concordando com o pensador Nietzsche, o Estado sempre vai estar interessado na formação de cidadãos obedientes e tem, portanto, tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre, tornando-a estática, infértil e estereotipada. A decadência se anuncia no momento em que o Estado firma alianças estratégicas com as organizações privadas poderosas e passa a subsidiar os estudos dos pobres, criar linhas de credito universitário (FIES), cotas nas universidades públicas e o jeitinho de formularuma espécie de “vestibular paralelo” (denominado de Provão Paulista Seriado), destinado exclusivamente para estudantes das escolas públicas do Estado de São Paulo; facilitando o ingresso (pelos “fundos”) a uma universidade pública. Na prática essas ações pontuais de “inclusão”pouco contribuem para a diminuição das desigualdades sociais e na melhoria na qualidade de vida de grande parte dos estudantes pobres, que concluem o ensino médio. Estudos mostram dados alarmantes:

  1. o aumentodos estudantes, com alto grau de vulnerabilidade socioeconômica, que se matriculam em faculdades privadas, principalmente na modalidade EAD;
  2. a evasão escolar no ensino superior é gigantesca e acomete principalmente os estudantes oriundos de escolas públicas;
  3. dentre os alunos,que mais se destacam nos cursos superiores das melhores universidades, estão os que estudaram em renomados colégios particulares;
  4.  a maioria dos estudantes de escolas públicas, que ingressam em uma universidade, encontram inúmeras dificuldades de aprendizagem, em virtude da defasagem cultural e pífia qualidade de ensino básico público;
  5. muitos alunos não se matriculam nas universidades públicas, pois não conseguem conciliar trabalho com estudos de graduação. Grande parte dos cursos superiores, ofertados pelas universidades públicas, são integrais e geralmente são ofertados por instituições que estão em um raio distante das residências desses estudantes;
  6. outro entrave é que a maioria dos estudantes universitários, de baixa renda, não conseguem concluir o ensino superior no tempo previsto;
  7. boa parte dos estudantes que conseguem concluir o ensino superior acabam trabalhando em outra área de formação e ou não tendo sucesso na carreira e nem melhoria na qualidade de vida.
  8. Temos ainda no Brasil uma baixa oferta de cursos superiores gratuitos e de qualidade, diante da demanda.

A crescente influência do Estado e das corporações privadas na educação acabou fomentando a massificação do acesso à educação superior, trazendo não só a oportunidade de efetiva universalização (“democratização”), mas também perigos, tanto em relação à qualidade do ensino quanto ao possível controle da propriedade privada na elaboração de políticas e diretrizes educacionais do país. As instituições de ensino superior estão a serviço dos interesses econômicos das grandes empresas, na medida em que procuram valorizar o conhecimento táctil, experimental e cotidiano em detrimento do conhecimento científico acumulado historicamente e socialmente, e, com isso, contribuem para reforçar a alienação, ao invés de superá-la.

Gramsci acreditava que o ensino não devia ser vocacional no sentido de providenciar preparação técnica ou profissional. Uma instituição de ensino formal tem compromisso o ato transmitir uma cultura humanística comum a todos sem uma prematura especialização vocacional. A cultura humanística das universidades devia valorizar os valores acadêmicos tradicionais de objetividade, pluralismo e racionalidade. Diante dos ideais gramscianos, fica notório que as universidades reproduzem essa hegemonia, negando qualquer indício de uma educação que promova valores humanos e instigue a reflexão acerca do modelo político. A educação superior contemporânea é um instrumento do capitalismo na formatação da razão e na geração de operários técnicos, o que acarretará em: uma desigualdade social profunda; homogeneização cultural; incremento na lucratividade dos grandes grupos educacionais do ensino superior; baixa qualidade de ensino e a manutenção da elite no poder.

A ganância dos mantenedores, a ausência de fiscalização das instituições privadas de ensino superior, a incompetência e permissividade do Estado e a demanda da propriedade privada, por mão-de-obra técnica, despolitizada e barata, acabam transformando a educação superior em business e não um meio ético e justo de mitigar as desigualdades sociais e transformar valores.

A sociedade clama por uma educação básica e superior verdadeiramente democrática e de qualidade; voltada à reflexão, emancipação e que respeite a natureza humana ao considerar o aprendiz como um ente sensível e um projeto inacabado. Neste sentido devemos nos unir e fortalecer diante a omissão, permissividade do Estado (MEC) e as barbáries realizadas pelas instituições de ensino superior que: priorizam o lucro, “rasgam” a pedagogia e calam com coerção os intelectuais, que não só conhecem a máquina, mas são os únicos aptos a fazerem do pensamento filosófico um aliado nas transformações da educação superior.

Deparamo-nos com um sistema de ensino superior privado positivista, mercantilizado e antiético, que não sabe mais seu verdadeiro papel na sociedade contemporânea, ao se mostrar ineficiente tanto em atender as demandas emergentes do mercado de trabalho, como incapaz de preparar um cidadão melhor para a sociedade. As universidades estão perdendo a capacidade de cultivar a imaginação, desenvolver pesquisas científicas significantes, fomentar valores morais e a criatividade de seus aprendizes.  Cultivar é fomentar a capacidade de dar sentido e significado às ciências e resgatar o amor pela filosofia, a mãe das ciências.

A vida não é o transcorrer monótono de sua rotina, é, sobretudo, a sublime inquietação de conhecer e de fazer. Como dizia o grande poeta marxista Pablo Neruda: “Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.” Essa proposta de reconstrução, quebra de paradigmas e revolução educacional, deve começar pelas mudanças na prática do docente, na condição de pesquisador reflexivo. É preciso encorajar os oprimidos a saírem da “caverna”, a adquirirem consciência sociopolítica, construírem sua própria história e a participarem como corajosos soldados dessa revolução do proletariado em busca de uma graduação de qualidade e transformadora.

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