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Vamos prosear

O ano de 2026 mal começou e o mês de janeiro já acabou. O tempo está pisando no acelerador de uma maneira que é difícil encontrar alguém que não tenha a mesma constatação. Perto de pularmos Carnaval e lembrando das comemorações de virada de ano como se tivessem acontecidas há dois ou três dias, divago sobre o tempo. Será que ele está passando assim tão depressa e todo atrapalhado, deixando um constante sentimento de atraso, tal como o coelho de na obra de Lewis Carrol, devido a grande quantidade de estímulos gerados pelos “ladrões de presença”? O fato de estarmos envolvidos e conectados ao mundo virtual de maneira a estarmos dependentes dele está fazendo com que a gente sinta esse tempo se acelerando? Confesso a você, meu amigo leitor e amiga leitora, que isso tem me incomodado.

Ao mudar o ciclo com a chegada de um novo ano, não fiz promessas. Sei que não vou cumpri-las. Na verdade, decidi tomar algumas decisões que serão revistas ou refeitas ao longo do ano todo. Já nos primeiros dias desapegamos de algumas coisas que estavam há anos guardadas em casa: potes sem tampas, equipamentos eletrônicos sem uso, roupas que não me servem ou não combinam mais comigo, enfim… De igual modo, decidi cuidar do meu tempo.

Se estou lendo algo, procuro não fazer mais nada além da leitura, se estou passando um café, o tempo é dele, tempo de sentir o aroma, de observar a água esquentar, de colocar as duas ou três colheres do pó que foi previamente escolhido no mercado após um tempo parado em frente a prateleira com as diversas marcas e qualidades do produto.

Meu relógio de pulso é de ponteiro, parece que o tempo é diferente nele.

Decidi até sacar umas notas de dinheiro e andar com um pequeno valor na carteira e, quando possível, pagar alguma compra com as cédulas, isso, inclusive, me ajuda na percepção do quanto estou gastando.

São pequenas ações que me ajudam a perceber o tempo de outra maneira. Acreditem vocês ou não, no ano passado tive dificuldade até em escrever as crônicas para este jornal, atividade que tanto gosto e que o tal do coelho amigo da Alice conseguiu me distanciar. Está aí outra decisão tomada, manter regularmente o “dedinho de prosa” para que possamos conversar um pouco sobre os diversos assuntos do cotidiano, quase que de maneira despretensiosa, porém sempre reflexiva. Sendo o PRIMEIRAFEIRA um jornal digital, é inevitável o uso de telas para leitura e é importante para um escritor que seus textos sejam lidos; para ler as reportagens do jornal saltense, leio sem nenhuma outra aba aberta, escrevo somente com o programa de textos aberto, evitando assim os ladrões de presença.

Neste ano novo que já completa um mês, apenas desejo tempo, para mim e para você. Que a gente consiga cumprir nossos afazeres com mais leveza, sem correria. Na maioria das vezes não estamos atrasados. Quando penso no “dedinho de prosa” penso na leveza e na calmaria que essa expressão carrega. Proseamos sem nos preocuparmos com o tempo, preparamos uma bebida, um petisco, servimos e somos servidos. Na prosa a gente ri, pode até chorar, se emociona e ficamos reflexivos, não há compromisso com tema da conversa, tempo de fala, “lacrações”, na prosa a gente proseia sobre tudo, se for sobre o Corinthians então, “há pano pra manga”. Sentar para prosear é tirar o pé do acelerador e quando se olha para o relógio, já se passaram mais de um dedinho, foi o braço inteiro.

Certa feita aconteceu isso. Sentei na garagem do vizinho junto ao dono da casa para bater um papo, abrimos uma garrafa de vinho e colocamos um bom rock dos anos 80. Enquanto a conversa rendia, abrimos outra garrafa, e outra, e conversa vai e conversa vem, e passou um, dois, três álbuns, pois bem, ao olhar o relógio de ponteiros notamos que dali a três horas nasceria o Sol, puro efeito da prosa. O tempo passou, a conversa foi boa, música de qualidade (ao menos para nosso gosto), ninguém se sentiu atrasado para nada.

Eu preciso desacelerar, creio que precisamos fazer isso juntos. A humanidade está correndo, para onde?

Prosearemos muito neste 2026, façamos um combinado: cada leitura do dedinho de prosa prepare um café, leia enquanto saboreia, com calma. Uma xícara será suficiente.

Um ótimo ano a todos e todas.

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