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A filosofia de Quincas Borba

Quincas Borba é um personagem de Machado de Assis. Pelo menos é afirmação que podemos fazer sem sombra de dúvida quando falamos de Memórias póstumas de Brás Cubas, porque há um outro livro de Machado, chamado justamente Quincas Borba, sobre o qual não sabemos se o título se refere ao mesmo Quincas do romance anterior (justamente Memórias póstumas), se ao cachorro Quincas Borba que aparece no romance homônimo (dúvida, aliás, comentada no último parágrafo do romance Quincas Borba, que é – o parágrafo, mas não menos o romance –estupendo). Mas tudo isso para mencionar um momento em que o personagem Quincas Borba, de Memórias póstumas, expõe um trecho de sua filosofia. Quincas, sabemos, fora amigo de Brás no colégio quando eram adolescentes; empobreceu depois, virou mendigo, recuperou-se por meio de uma herança de um tio e fundou uma escola de filosofia, o Humanitismo. No capítulo CXLII ele cita Pascal, quando este diz, nas palavras transcritas no romance, que o homem tem “uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente”.

A afirmação de Pascal, exarada no século XVII, teve acolhida e desdobramentos filosofia afora, e encontrou no século XX, em Martin Heidegger, nuances que ficaram célebres. O “SeinzunTode” (ser-para-a-morte) de Heidegger convida à reflexão sobre o caráter inevitável da finitude, o que deveria levar a um pensamento mais preocupado com o desenvolvimento das próprias possibilidades e afirmações, que com algum tipo de correspondência de expectativas genérica advindo da impessoalidade da multidão. Trata-se de reflexão sofisticada, para a qual é necessário dispêndio de tempo, condições concretas de bem-estar, possibilidades materiais de realização. Em outras palavras e para ir agora mais direto ao assunto, com um contorno ligeiramente diferente: filosofar sobre a morte é um luxo. Não quero, com isso, dizer que esse filosofar não tenha importância; chamo a atenção, antes, para o fato de que aqueles que estão mais perto da morte dadas suas condições materiais (insegurança alimentar, falta de saneamento, regiões sob guerra etc.) são os que menos terão condições concretas de parar para pensar em sua condição de mortais. A premência da manutenção da vida ameaçada sobressai. Dadas essas condições, me parece que Quincas Borba, com a devida vênia à história da filosofia, superou Heidegger.

Em sua formulação: “‘Sabe que que morre’ é uma expressão profunda; creio, todavia, que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome”. Que ele continue: “Porquanto o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente”. Há aqui um grau de ironia (ou sarcasmo) considerável. De minha parte, sem a mesma envergadura para tomar parte na questão, lanço apenas uma provocação: filosofar sobre a finitude, a morte, o ser-para-a-morte, só é possível preenchidas algumas condições materiais ligadas à própria manutenção da vida. Aquele que “sabe que tem fome”, mais próximo que está da morte, tem mais dificuldade para filosofar a respeito…

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