Diz um antigo ditado popular que “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Na sociedade contemporânea, contudo, perdemos a noção de medida. A cultura ocidental substituiu a antiga busca pela estabilidade por um imperativo de acumulação: precisamos de mais informação, mais produtividade, mais conexões e mais consumo. Sob a ótica da psicologia, esse cenário revela que o “excesso” deixou de ser um símbolo de sucesso e prosperidade para se transformar em um dos principais gatilhos para o adoecimento mental da atualidade.
O primeiro grande impacto dessa dinâmica ocorre na nossa capacidade cognitiva. Diariamente, somos bombardeados por um volume de estímulos e dados digitais que o cérebro humano não foi evolutivamente projetado para processar. Esse fenômeno, muitas vezes chamado de infoxicação, gera um estado de alerta constante e exaustão mental. Surge daí o paradoxo da escolha: diante de infinitas opções – de carreiras a produtos, o indivíduo desenvolve ansiedade antes de decidir e frustração após a escolha, assombrado pelo medo crônico de ter deixado algo melhor para trás.
Além disso, o excesso atua frequentemente como uma anestesia emocional. Compras impulsivas, o consumo exagerado de telas e a busca incessante por entretenimento funcionam como mecanismos de fuga para não lidarmos com dores legítimas, como a solidão, a rejeição ou o tédio. O problema central desse comportamento é neuroquímico. O cérebro acostuma-se rapidamente com os picos artificiais de dopamina gerados pelas gratificações instantâneas. Com o tempo, doses cada vez maiores de estímulos são necessárias para provocar a mesma sensação de satisfação, pavimentando o caminho para a dependência digital, compulsões e quadros depressivos.
Há também o excesso da cobrança interna. A exigência por uma performance impecável e a chamada “positividade tóxica” criminalizam o descanso e o erro, transformando o cotidiano em uma linha de montagem implacável. O esgotamento profissional (burnout) nada mais é do que o colapso do indivíduo pelo excesso de si mesmo e da incapacidade de estabelecer limites saudáveis em sua rotina.
Cuidar da saúde mental no século XXI exige, portanto, a coragem de resgatar o valor do limite. Na prática clínica, percebe-se que o bem-estar psicológico não reside na tentativa de abraçar o mundo, mas na capacidade de filtrar o que entra na nossa mente. É preciso aprender a dizer “não”, aceitar o tédio como espaço criativo e suportar o vazio sem a urgência de preenchê-lo imediatamente. Em uma era que exige o máximo o tempo todo, buscar o “menos” tornou-se o maior e mais urgente ato de autocuidado.
“Material apenas informativo”
Patrícia Zanetti Salvaterra da Silva – CRP 06/130220