Cidades

Interligadas

Impermanência

Tenho quarenta e três anos de vida, casada.

Gosto de tudo o que é durável, como exemplo, cito minha primeira lavadora de roupas, ela viveu por vinte e cinco anos. Por mim, estaria viva até os dias atuais. Mas que não deu conta de tanta roupa suja a lavar, por tantos anos.

Há nove anos, minha filha que já é adulta e decide algumas coisas da casa, da vida em família, resolveu comprar um novo espremedor de alho para a nossa cozinha.

Raisa, como assim você decidiu que precisamos de um novo espremedor de alho, se já temos dois.

-Mãe, olha só estes espremedores de alho aqui, velhos, antigos, nem sei de que material são feitos.

-São de alumínio fundido, Ra.

-Então, velho e feio. Comprei este, de alumínio brilhante, já que os seus são alumínio feio e agora você passa a usar este e, se não quiser, pode deixar que eu quando precisar, uso.

Pronto, ela decidiu tudo e eu, achando interessante o interesse dela pelos meus espremedores, acato e resolvo também usar o novo aparelho. Não gostei dele, preferia o meu, na pegada, mesmo que no funcionamento, iguais. E, já que a moça comprou o novo, está bem, vamos usar.

E eu fiz foto dos dois juntos, por isto sei até o dia em que o novo chegou, pois já era a vontade de contar a minha quase indignação por um produto desnecessário no momento, chegar.

21 de abril de 2017 ele nasceu, aqui em casa. 8 de abril de 2019 ele morreu, aqui em casa. Dois anos. Quase dois anos de vida mais inútil que útil teve esse espremedor feito de alumínio polido, aqui.

Este meu gosto pelo antigo, pelo que estou acostumada a maneira de funcionar, de utilizar, de gostar de cuidar de coisas e objetos acabei – numa dessas tardes de tanto pensar e sempre a praticamente nenhuma conclusão concluir – comparei o novo ao antigo, o que dura e o que acaba rápido, o que tinha serventia por tantos anos e o que só por um tempinho.

Por que depois de tantos anos lembrei de contar sobre os espremedores de alho, se não o fiz por tanto tempo, se sempre me lembrava do acontecido?

Porque na semana que passou, um dos dois espremedores que me acompanham a vida de casada de quarenta e três anos, quebrou. Exatamente da mesma maneira que quebrou o que só viveu por dois anos.

Resolvo pensar na impermanência das coisas e aí sim, concluo: O que se vai e o dinheiro pode substituir, não tem valor, tem preço. Pague o preço e tudo estará resolvido.

Na mente neste instante de pensamentos, me vem meus avôs, tios, tias, dois dos primos, uma prima, dos tantos que tenho e por fim, meu pai. Não permaneceram e não há preço que os traga de volta.

Que o valor à vida seja dado enquanto os destinatários do nosso amor, vivem.

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