Cidades

Interligadas

Tudo começa em casa

Esse é o título de um livro do pediatra e psicanalista Donald Winicott. Evoco-o aqui para apontar um dado que, acredito, pode ser comprovado por todos aqueles que já tiveram a oportunidade de estar à frente de uma sala de aula composta por adolescentes: tais alunas e alunos expressam de maneira fiel a convivência que experimentam em seus lares. Em termos bastante claros, isso significa que os estudantes mais respeitosos, interessados, dedicados e com melhor aproveitamento são aqueles que, em suas famílias, vivenciam uma realidade de amparo, atenção, carinho, cuidado; em suma, têm o que de fato se pode chamar de “lar”.

Não estou pensando em termos ideais; o próprio Winicott é muito claro em seu livro ao apontar o quão normal é a rebeldia na fase adolescente. É uma fase de definição mais clara de uma identidade pessoal, a qual é construída muitas vezes em oposição à noção de autoridade representada justamente pelos pais. Assim, um adolescente sem qualquer traço de rebeldia seria quase que uma contradição em termos. Isso levado em consideração, a afirmação primeira apenas se reforça: o ambiente de crescimento é fundamental para uma vivência saudável dessa fase turbulenta.

Penso em um exemplo: como bem apontou Maryanne Wolf, neuropsicóloga que se dedica ao estudo dos efeitos da leitura sobre o cérebro humano, é fundamental que a leitura seja incentivada nos primeiros anos de alfabetização da criança. Mantida a prática, ela tende a ser um leitor para o resto da vida. Atualmente, com a presença maciça da tecnologia no dia a dia, talvez seja a adolescência a fase mais crítica para que se defina se uma pessoa será ou não uma leitora por toda a vida. Mas quantos pais que nunca serviram de modelo de leitura para seus filhos lamentam que eles não gostam de livros, têm dificuldade de leitura e não conseguem se desenvolver em matérias escolares voltadas mais especificamente à interpretação e produção de textos?

Podemos pensar ainda em mais um caso: na sala de aula, há alunos que demonstram uma parca noção de respeito à autoridade. Cravemos: alunos respondões, insolentes, desrespeitosos com o professor são assim também em casa com os pais. Por outro lado, aqueles para quem os pais são figuras de absoluto respeito demonstram a mesma atitude diante do professor. Não há mistério aí: tal como no lar, assim na escola, e vice-versa. Um dos problemas mais evidentes atualmente é que os pais, temendo seus próprios filhos, tornam-se seus defensores quando se aponta algum problema em seu comportamento: o problema é do professor, da escola, dos colegas, nunca de quem aparece em frente ao espelho e teria que se defrontar com sua própria conduta enquanto figura de autoridade.

Trago aqui um aspecto da questão, que pode ser complementada futuramente, pois não se pode ignorar uma situação real: famílias não são átomos isolados, mas vivem em conjunto, vivem em uma sociedade. É um dado que não pode ser ignorado.

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