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Dieta cetogênica: milagre metabólico ou apenas mais um “hype”?

Se você abriu uma rede social nos últimos meses, as chances de ter cruzado com um prato de ovos com bacon e a promessa de uma perda de peso acelerada são altas. A dieta cetogênica — ou “Keto” — virou a queridinha do momento, mas pouco se fala sobre como essa estratégia realmente funciona no organismo e, principalmente, sobre o preço que o corpo paga para entrar nela. Afinal, o que a ciência realmente diz?

Dieta cetogênica: o que é e o que acontece no organismo?

A dieta cetogênica não é apenas “comer pouca massa”. É uma intervenção que inverte a lógica do nosso metabolismo. Normalmente, nosso corpo usa a glicose (vinda dos carboidratos) como combustível principal. Na cetogênica, reduzimos os carboidratos a um mínimo, forçando o fígado a utilizar gordura para produzir cetonas.

As cetonas (ou corpos cetônicos) são moléculas de energia reserva que o fígado fabrica a partir da gordura quando a glicose está em falta. Elas funcionam como um “combustível de emergência” altamente eficiente, capaz de atravessar a barreira sangue-cérebro para manter o sistema nervoso funcionando. É uma mudança drástica de lógica: o corpo sai do “modo açúcar” e tenta se estabilizar no “modo gordura”. Parece prático, mas essa transição exige um esforço metabólico que tem um custo alto para o bem-estar em sua fase inicial.

O pedágio: a “gripe cetogênica”

Antes de sentir qualquer benefício, o praticante costuma passar pelo que a ciência chama de KetoFlu. Como o corpo demora alguns dias para aprender a usar as cetonas, o cérebro “reclama” da falta de glicose. O resultado? Dores de cabeça, tonturas, fadiga extrema e um mau humor considerável (além de um hálito com cheirinho de acetona). No consultório, vejo muitos pacientes desistirem justamente nessa fase, pois o corpo não encara essa mudança de forma tão natural quanto os influenciadores sugerem.

Mitos e verdades: o que a ciência diz

Mito: “é a melhor dieta para atletas de performance”

Como nutricionista, preciso pontuar que para atividades que exigem explosão e força, a glicose ainda é o combustível mais eficiente. A cetose pode, inclusive, reduzir o rendimento esportivo em praticantes saudáveis.

Mito: “qualquer pessoa saudável deveria fazer”

Se o seu metabolismo funciona bem, submeter-se a uma restrição tão severa é desnecessário. O equilíbrio nutricional ainda é o padrão ouro para quem não tem condições clínicas específicas.

Verdade: “é uma ferramenta terapêutica poderosa”

A cetogênica brilha na clínica. Ela pode ser sim uma ferramenta muito útil em alguns períodos para o controle de diabetes tipo 2, epilepsia refratária e como suporte em alguns protocolos oncológicos, sempre com acompanhamento médico e nutricional rigoroso.

Vale a pena entrar nessa onda?

Para a maioria das pessoas, o “perrengue” do início e a rigidez social da dieta não compensam os benefícios, que poderiam ser alcançados com uma alimentação equilibrada e menos processada.

O que sempre reforço aos meus pacientes é que a dieta cetogênica é uma excelente ferramenta médica, mas tratá-la como um estilo de vida recreativo é ignorar a complexidade do nosso metabolismo. Antes de banir o arroz e feijão, pergunte-se: você precisa de uma intervenção clínica ou apenas de mais comida de verdade no prato?

Átila Orteiro – CRN-3 85932| Nutricionista Clínico e Comportamental

@atilaorteiro.nutri

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