Uma pesquisa levada a cabo por alunos de ensino fundamental II de uma escola em Itu perguntou a pessoas de variadas idades e profissões o que elas pensavam sobre algumas questões relacionadas à língua portuguesa. De maneira geral, o resumo é o que se segue.
Quando perguntadas se o português é uma língua difícil, a maioria das pessoas respondeu que sim. São muitas regras, conjugações verbais, pronomes… tudo isso faz do português uma das línguas mais difíceis do mundo. Essa opinião resiste a um contraponto científico? Nem por um segundo! Se você é nascido(a) no Brasil e sua língua materna é o português, desafio-o(a) a dizer o nome de uma língua mais fácil que o português, com a qual você lide com a mesma naturalidade com que lida com o português, que entenda tão bem e se expresse tão bem como faz com o – perdoe a repetição – português. Difícil, né? Pela simples razão de que a nossa língua materna é a língua mais fácil para nós, tanto é que a usamos sem ter que fazer esforço; ela é produzida automaticamente por nós. Você pode alegar que é difícil falar “certo”, que falar “errado” qualquer um fala. Bem, para enfrentar essa questão teríamos que escrever outro texto (o que já foi feito anteriormente nesse mesmo espaço). O que podemos dizer no momento é que não temos problemas de compreensão mesmo quando falamos ou ouvimos alguém “falar errado”; mas também dá pra afirmar: qualquer pessoa que está aprendendo o português como segundo língua adoraria falar tão “errado” como qualquer brasileiro nativo fala…
A segunda pergunta é da mesma família que a primeira, por assim dizer. O brasileiro fala o português corretamente? As respostas a essa questão foram mais divididas. Digamos que metade das pessoas disse que sim, outra metade disse que não. Essa pergunta é daquelas que revelam um grande desconhecimento sobre como abordar um fenômeno a partir de um ponto de vista científico. Essa abordagem não chega ao grande público, uma vez que os canais mais populares de comunicação vivem propagando a visão de não especialistas sobre a linguagem, e na internet, embora tenha gente de todo espectro, parece prevalecer a visão do senso comum, baseada em uma ideia ideal de língua que não corresponde à realidade. Na verdade, tratar da questão em termos de “fala corretamente / não fala corretamente” é uma simplificação muito grande, já que o fenômeno da linguagem é muito mais complexo do que o que essa divisão sugere. Nem todos os brasileiros falam a chamada “norma culta” (também conhecida como norma-padrão ou prestigiada), mas isso não significa que não falam adequadamente o português, mesmo porque pairam grandes indefinições e imprecisões sobre o que seria na verdade essa “norma culta”. Quando se examina com cuidado, muitos defensores dessa “norma” cometem as mesmas “imprecisões” gramaticais que condenam na forma de falar daqueles que supostamente não sabem falar português (e o termo é tão impreciso que o linguista Carlos Alberto Faraco costuma utilizar a alternativa jocosa “norma curta”).
Em suma, ainda que sem o rigor científico necessário, a pesquisa dos alunos revela que os brasileiros desconhecem fatos básicos sobre sua própria língua.