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Há 12 anos

Escrevi esse texto em 6 de fevereiro de 2014, pensei até em nem publicar, são impressões de lembranças minhas, que talvez não interesse a ninguém, mas enfim ele está feito e divido com vocês.

Meu pai, Rubens Abächerli, foi cliente de caderneta do Armazém Popular, quando criança desde os sete anos eu ia buscar itens de casa para minha mãe no Armazém, o Bertinho, novo, nem casado com Rosali ainda era, sempre foi uma figura imponente, mas a imponência dele, que sempre foi uma pessoa carinhosa e tranquila, não me impedia de percorrer aquele armazém todo, andando atrás dos funcionários querendo ver de onde eles tirariam cada coisa que estava na lista da minha mãe.

O balcão onde o Bertinho ficava era do lado oposto do mais recente, ali ao lado de onde até a semana passada ficava a vitrine de sorvetes e atrás, havia um mezanino, me parecia ser feito da mesma madeira das tão antigas prateleiras, de pinho de riga, que deveria ser o escritório do armazém. Aquele mezanino era a minha verdadeira paixão dentro do armazém, adorava subir ali e ficar vendo o Bertinho atendendo os clientes lá embaixo e se por acaso ele me visse ali em cima, o máximo que dizia era pra eu ter o cuidado de não cair.

Uma lembrança inesquecível foi um dia, em que meu pai chegou do trabalho um pouco mais cedo que o normal e me convidou a ir ao armazém com ele, eram 16:00 horas, segunda-feira, eu com onze anos, dia de estreia do programa Sítio do Pica-pau Amarelo, que aconteceria às 17:00, fiz meus cálculos e acreditei que pudesse sim, ir com meu pai e retornaria a tempo de assistir o início do seriado. Não voltamos a tempo, sofri muito e acreditem, eu nunca consegui assistir ao capítulo inicial, até hoje. Triste, mas que me lembra eu sentada na cabine do caminhão e rezando para o meu pai não querer conversar tanto com o Bertinho. Ele quis. E nem o pacote de biscoito waffer que sempre vinha em agradecimento ao pagamento da conta do mês me fez feliz aquela tarde.

Muitos anos depois, mais precisamente em dezembro de 1990, a Ouro e Prata mudou-se para nosso atual endereço e eu vim a ser vizinha de todo dia do armazém da minha infância. E eu que costumo dizer que sou feita de boas lembranças, na sexta-feira 31/01/2014, dias depois de comentar com nossa outra vizinha, Lilian Bifano, que este mês de janeiro estava sendo generoso, por não vermos tantos problemas com enchentes, abalos sísmicos e outras tragédias que costumam acontecer neste mês, tive que lavar minha boca com sabão, ao receber a ligação do Frank, às 20:33 horas, que estava na loja ainda, fazendo o encerramento do mês, com a voz abalada me dizendo que ouviu estouros e olhando pela janela viu a fumaça preta que já saia de frinchas do armazém e que não conseguia falar com o Corpo de Bombeiros, eu também fiz esta ligação e consegui pedir socorro. Cinco minutos depois, ele liga novamente, agora com a voz embargada me contando que já havia labaredas saindo do prédio.

Chorei diversas vezes e com muitas pessoas que nos visitaram no sábado, chorei com o funcionário Joel na terça e ainda vou chorar um pouco, a cada vez que contar a alguém a importância que este espaço teve em muitos momentos da minha vida.

Desejamos a família Ferrari, toda a serenidade de que necessitam para suportar a falta que este espaço fará em suas vidas.

Nas nossas também.

Agora, só restam as boas lembranças.

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