A partir dos anos 1960, vários países latino-americanos engajaram-se na implementação da autointitulada “Revolução Verde”, momento histórico marcado pela: produção de conhecimentos; transformações nos processos e gestão rural e inovações tecnológicas no campo da biologia, física e química, oriundas da Europa. Tais mudanças desencadearam na modernização da agricultura brasileira, impulsionada pela abertura comercial (importação de produtos e tecnologias das nações desenvolvidas), facilidades de obtenção de financiamento, diversas linhas de crédito rural, integração com o setor industrial e conquistas de novos nichos de mercado de commodities agrícolas.
Esse novo modelo de exploração capitalista teve como meta o aumento da produção e incremento produtividade das atividades agropecuárias, assentando-se, para tanto, no uso intensivo e irracional de insumos químicos (adubos e agrotóxicos), sementes geneticamente melhoradas, expansão dos sistemas de irrigação, na intensa mecanização (agricultura de precisão) e avançados sistemas de informações e controle de produção. Em síntese, uma cadeia articulada de processos e atividades que passaram a serem nomeadas como “pacote tecnológico”.
Na fase conhecida como a “modernização conservadora”, marcada por sucessivas mudanças técnicas, sociais, culturais, econômicas e principalmente políticas, a agricultura brasileira passou a operar fortemente com o setor industrial e a depender profundamente de outros países para a obtenção de insumos, sementes, adubos, tecnologias e principalmente da importação de matéria-prima por parte dessas nações. Essa revolução na base produtiva da agropecuária, sem dúvida nenhuma, resultou em grandes índices de produtividade e produção, principalmente no que se refere às commodities. Todavia esse novo padrão de “desenvolvimento” gerou: elevados níveis de pobreza absoluta; concentração de renda e terra; êxodo rural; diminuição das áreas de preservação ambiental; desigualdade tecnológica e social, entre os grandes e pequenos agricultores, danos à biodiversidade; desmatamento; contaminação dos cursos de água e outros impactos ambientais; além de aumentar o poder aos setores montante e jusante do CAI (Complexo Agroindustrial) e trazer sérios problemas na saúde da população brasileira.
A aprovação de agrotóxicos no Brasil segue em ritmo acelerado, ou melhor de “porteira aberta” desde 2019. Segundo o Ibama foram 1.560 novos ingredientes ativos registrados entre janeiro de 2019 a fevereiro de 2021, uma média de 1,4 substâncias por dia. Em 2000 o Brasil tinha 82 agrotóxicos registrados e atualmente essa quantidade ultrapassou os 500 registros, de acordo com o Greenpeace. Outra grande preocupação é o acréscimo exponencial do consumo de agrotóxico no Brasi, se configurando como o país que mais consome esse tipo de produto no mundo.
Brasil aparece como o principal importador das substâncias proibidas e o maior receptor de empresas multinacionais de insumos agrícolas, que são proibidas de operarem em seus países de origem. Todos esses alimentos que são produzidos, utilizando-se desses agrotóxicos proibidos, não são aceitos por nenhum país da Europa e nem pelos Estados Unidos.A Europa segue enriquecendo às custas da saúde de países mais pobres.
Entre as muitas substâncias em circulação, está a atrazina, um dos herbicidas sistêmicos mais utilizadas e que se encontra tanto a água, solo e nos alimentos. Além disso, outro efeito colateral está nos animais, com destaque para as abelhas, o artrópode mais vital na polinização, levando à dizimação de comunidades. Dentre os inseticidas mais usados e eficazes, encontra-se o organofosforado. Estudos científicos mostram que a exposição a esses pesticidas está associada a distúrbios neurológicos, incluindo transtorno de déficit de atenção (TDAH), autismo e quociente de inteligência (QI). Globalmente, 80% a 85% dos casos de câncer estão ligados à exposição a agentes químicos, físicos ou biológicos, incluindo os organofosforados, o mais consumido no Brasil.
Não podemos mais permitir um governo omisso, que colabora com a manutenção do colonialismo químico, que perdura por meio século. O poder econômico das transnacionais de “defensivos” agrícolas e seu lobby sobre os poderes da República; a ausência de políticas públicas ambientais e de saúde para impedir a importação e uso de certos insumos e alimentos “duvidosos”, associada com a falta de conhecimento da população; a irresponsabilidade socioambiental do governo, que não fiscaliza a prática do trabalho infantil no campo e a precarização e a insalubridade do trabalhado rural e a omissão da mídia de massa coloca em risco milhões de vidas. O colonialismo químico se tornou a mola propulsora da geopolítica dos alimentos do século XXI.