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O pensamento mágico

Uma das coisas que mais têm despertado meu interesse ultimamente é a presença do pensamento mágico em nossa sociedade, não obstante já termos alcançado condições mais que suficientes para superá-lo. Defino pensamento mágico aqui na esteira de Thierry Ripoll, membro do Laboratório de Psicologia Cognitiva da Universidade de Aix-Marseille, na França: crença na existência de relações causais entre fenômenos que não mantêm, na verdade, nenhuma relação. Está chovendo bastante porque os agricultores levantaram uma prece em conjunto para que isso acontecesse; o tal pastor da igreja universal teve um câncer na perna porque chutou a imagem da santa; o acidente com o carro na estrada se deve ao fato de haver um objeto amaldiçoado no porta-luvas. Os exemplos aqui poderiam ser multiplicados à saciedade e poderiam tratar de coisas até bem banais: perdeu dinheiro porque deixou a bolsa no chão; deu azar no concurso porque passou embaixo da escada ao entrar no prédio; a sogra morreu porque o chinelo ficou virado de cabeça pra baixo.

Uma vez que é mais fácil e mais atraente, o pensamento mágico conta com muitos adeptos. A grande maioria das pessoas, pode-se dizer. É a prevalência do que o mesmo Ripoll chama de “sistema intuitivo”. É a explicação que não depende de investigação profunda, que não procura leis de causa e efeito realmente existentes, que se guia predominantemente pela emoção e se apega a um conjunto de crenças cuja origem se perde em tempos longínquos. Esse sistema fazia muito sentido quando vivíamos em tempos de ignorância quanto à explicação dos fenômenos. Já fez muito sentido na história da humanidade acreditar que o regime de chuvas e, logo, o de plantação e colheita dependesse do aplacamento da ira dos deuses: o que sabíamos nós sobre os ciclos da natureza quando pensávamos que a terra, por ser plana, acabava ali onde o mar fugia da vista? Na ausência de melhores explicações para o que hoje entendemos ser ação de vírus e bactérias, por que não apelar para um ritual que evocasse forças desconhecidas do além, por meio de rituais, bebidas e sacrifícios?

Atualmente, no entanto, temos condições de superar o sistema intuitivo como base de explicação para uma imensa parte do que antes era tratado apelando-se para forças cegas que falavam ao nosso coração. No lugar da intuição, assim, podemos contar com a análise, ou o que Ripoll chama de “sistema analítico”. É aquele que está na base de uma atitude investigativa diante da realidade e é fruto de muito estudo e muito respeito a evidências verdadeiras de relação de causa e efeito; muitas vezes, é contraintuitivo e até mesmo iconoclasta, no sentido de destronar velhos ídolos e crenças arraigados na sociedade. Os avanços tecnológicos que tivemos e hoje nos servem só puderam ser alcançados na base desse sistema. Não parece óbvio que ele deveria prevalecer em nossos dias? Por que isso não acontece? Ou: por que há setores da vida social que parecem intocados pelo sistema analítico? Assunto para outro momento.

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