Se você digitar a palavra “câncer” em qualquer barra de pesquisa da internet acompanhada do termo “dieta”, o resultado será um verdadeiro campo minado de terrorismo nutricional. De um lado, perfis prometem a cura milagrosa através de sucos detox ou da exclusão radical de grupos alimentares inteiros. Do outro, listas intermináveis decretam que praticamente tudo o que você gosta de comer “alimenta a doença”.
Diante de um diagnóstico que já é naturalmente avassalador, o prato do paciente vira um cenário de guerra, culpa e ansiedade. Mas precisamos falar a verdade, sem rodeios: nenhum alimento isolado tem o poder de causar ou curar o câncer. E insistir nessa narrativa faz mais mal do que bem.
O mito do “açúcar que alimenta o tumor”
Talvez a mentira mais espalhada (e mais cruel) seja a de que cortar o açúcar zera as chances de o tumor crescer. Biologicamente falando, de modo geral as células do nosso corpo, inclusive as saudáveis, usam a glicose como combustível para gerar energia. Restringir o carboidrato de forma drástica e sem controle não vai “matar o tumor de fome”; mas pode, na verdade, deixar o paciente fraco, desnutrido e sem forças para aguentar as sessões de quimioterapia ou radioterapia.
A nutrição oncológica não serve para punir o paciente ou impor privações severas em um momento em que ele já está vulnerável. O foco principal deve ser o oposto: manter o corpo forte.
Comer precisa continuar sendo um acolhimento
Durante o tratamento, os efeitos colaterais são frequentes. Enjoo, alteração no paladar (tudo parece ter gosto de metal), feridas na boca e falta de apetite são queixas comuns. Se transformarmos o momento da refeição em uma obrigação rígida cheia de proibições, o paciente simplesmente desiste de comer.
Se o que a pessoa consegue tolerar em um dia difícil de enjoo é um purê de batatas com um fio de azeite, ou um picolé de limão para aliviar a boca seca, isso é um ganho. A comida tem uma função que vai muito além dos nutrientes que aparecem na tabela periódica: ela é afeto, memória e conforto.
O perigo dos “superalimentos” e dos chás milagrosos
Outro ponto espinhoso são as falsas promessas de cura por meio de chás concentrados ou suplementos exóticos vendidos por curandeiros de internet. Além de não funcionarem, muitas dessas ervas concentradas podem sobrecarregar o fígado e os rins — órgãos que já estão trabalhando dobrado para metabolizar a medicação do tratamento — ou, pior, interferir diretamente na eficácia da quimioterapia.
O melhor “superalimento” que existe para quem está enfrentando o câncer é a comida de verdade, preparada de forma segura, higiênica e respeitando os limites e desejos de quem vai comer.
Menos culpa, mais sustentabilidade
O papel do nutricionista na oncologia não é criar barreiras, mas sim construir pontes. É ajustar a textura do alimento se engolir estiver difícil, combater a perda de massa muscular e garantir que o paciente tenha energia para levantar da cama e viver a sua rotina.
Cuidar da alimentação é fundamental? Sem dúvida. Mas a dieta deve ser uma aliada do tratamento médico, nunca um fardo extra para carregar. Em vez de buscar o milagre na internet, que tal focar no que é real, seguro e traz um pouco de paz para o coração e para o estômago? Menos regras milagrosas, mais acolhimento no prato.
Átila Orteiro | Nutricionista Clínico Comportamental, pós-graduado em Nutrição Oncológica | CRN-3 85932 | www.atilaorteiro.com